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Ceticismo social, memetização da vida e a realização de festas

Ceticismo social, memetização da vida e a realização de festas em tempos de pandemia de COVID-19 - Por Amon-Rá Bandeira

ASSESSORIA

29 de Julho de 2020 às 14:27

Atualizada em : 29 de Julho de 2020 às 15:30

Foto: Divulgação

 

Introdução
 
Relembradas são ainda hoje, por alguns acadêmicos, reflexões como a do filósofo alemão Friedrich Nietzsche que denunciou a presença do idealismo na cosmovisão do mundo ocidental. Explicitamente aflorado pela religiosidade judaico-cristã e por alguns elementos de filosofia platônica.
 
Estas concepções alienava as graças da existência terrena à um pós-morte eterno ou a dimensões transcendentais, condenando os prazeres dos sentidos e exortando as pessoas a uma vida de abnegação e adoração ao criador, ou, contemplação da verdadeira realidade através do logos. Mas… E quando a busca pelos prazeres da existência coloca em risco a vida humana e respectivamente seu bem estar?
 
É este sintoma que gostaria de tratar neste ensaio de uma perspectiva social, pois esta problemática parece estar implicitamente posta com as chamadas ´´coronafest´´: festas promovidas por jovens neste momento em que estão estabelecidas medidas de contingência e isolamento social, provocadas pela pandemia de COVID-19.
 
Este fenômeno foi observado pelo mundo todo, podendo ser encontrado relatos nos jornais dos mais diversos idiomas, em que jovens da geração millenium, colocam em risco suas vidas e de seus familiares para viverem momentos de curtição em meio ao contexto de necessária reclusão.
 
Vale ressaltar que estes eventos não se tratam de ações individualizadas, mas promovidas em sentido lato, por um conjunto de pessoas que compartilham uma série de valores. Apresentados a nós como concepções coletivas passíveis de serem representáveis conceitualmente pelo olhar sociológico. Quais fatores podemos elencar no ambiente social como motivadores destas ações coletivas?
 
Ceticismo Social
 
Denomino ceticismo social o sentimento de desconfiança presente na opinião pública sobre as informações divulgadas, pelas agências sanitárias governamentais, organismos não governamentais, meios de comunicação de massa, influencers digitais, especialistas e outros agentes que buscam através do discurso de tom realístico, influenciar a sociedade sobre um fato, que escapa da capacidade da maioria dos indivíduos pesquisar e compreender de forma acurada.
 
A contraparte deste fenômeno está no fato de que em maior medida, o meio de informação utilizado pelo senso comum tem como base a confiança em um pequeno conjunto de mediadores e o testemunho próprio destes, para atestar a veracidade da informação — ´´la única garantia que tu tiene soy yo´´.
 
Estas informações ao serem analisadas pelo indivíduo, de certo modo ciente da complexidade epistêmica das problemáticas envolvidas e do grande quantitativo de dados presentes em seus canais de informação. Aliado ao cansaço causado pela fragmentação do mundo social, mundo este em que o indivíduo cotidianamente desempenha várias funções, como demonstra Byung-Chul Han na Sociedade do Cansaço. É de de se notar que em parte destas atividades, há forte pressão social no sentido de serem executadas com alta performance, de modo a aumentar as chances de reconhecimento e prestígio coletivo.
 
Cansado, o indivíduo ao deparar-se com a profusão de informações sobre determinado tema na rede, se vê impossibilitado de se inteirar com profundidade dos assuntos que lhe são apresentados.
 
Em meio a esta contingência, como meio de se defender de uma suposta desinformação ou assunção de um posicionamento considerado incauto pelo poder foucaultiano capilarizado nas redes de relações sociais, opta não dar crédito ou não aceitar passivamente nenhuma das narrativas apresentadas. Neste sentido, ao pagar com desconfiança o preço da dúvida, o indivíduo acaba por transformar o ceticismo no senso comum ou em uma espécie de ´bom senso´ de nossos tempos.
 
Tratando especificamente dos millenials, ou seja, as gerações que cresceram sob influência da informática e mídias sociais, estes que foram ´expostos´ desde a tenra idade a uma grande quantidade de informações e teorias das conspirações, do consumismo de inovações pós-modernistas, dos ideários cyberpunks e a mausoléus de grandes novidades da cultura de massa.
 
Estes que formam em grande medida os grupos de agentes promotores destas festas em meio a pandemia, possuem algumas peculiaridades quando tratamos do descaso com as informações e das medidas sanitárias. O ceticismo social toma outras nuances para parte destes jovens cujo espírito internauta possui maior versatilidade para o expor as controvérsias das problemáticas da vida e, ainda, sua ´´memetização´´.
 
Entretanto, no mundo em que o saber científico se tornou hiper especializado e cujo conhecimento é traduzido para uma linguagem definitivamente hermética e limitada aos pequenos grupos de cientistas capazes de compreendê-la lucidamente, os jovens por mais capacitados que sejam em alcançar essas fontes compostas por dados científicos metodicamente apresentados, tornam-se impossibilitados de traduzi-los em termos de sua realidade cultural.
 
Sendo assim, a versatilidade desta geração de internautas por mais que permite-os encontrar com maior facilidade as controvérsias das problemáticas apresentadas pelos canais de informações e se deparar com o conhecimento que saia da seara da la garantia soy yo, seus canais de acesso tornam-se permeados de questões nas quais se sentem impossibilitados de realizarem um juízo com precisão, que, não reflitam apenas em nível retórico a desconfiança das narrativas apresentadas como informação e sua consequente ironização expressa na produção de memes.
 
Assim, percebendo-se incapazes de diferenciar os dados muitas vezes inconclusos da tradição científica, das teorias conspiratórias com alto nível de sofisticação retórica e com alguma plausibilidade. Vivenciam de modo recorrente o dilema de Morpheus, claro, sem a presença real deste mentor, quando compelidos a escolherem entre pílulas azuis e vermelhas das crenças e de algum modo ter de expressarem remotamente seus posicionamentos. Em meio a este fluxo, o ceticismo ganha prestígio como espaço de liberdade de expressão viável e a margem da coerção simbólica.
 
Este fenômeno pode ser observado, principalmente em ambientes onde disputas carregadas por afetos, em que partidarismos se acirram quase que de modo maniqueístas, emergindo destes céticos, geralmente posicionamentos: ´´neutros´´, ´´brandos´´ ou denominados de ´´sensatos´´.
 
Que nada dizem nada além do óbvio ou do imediatamente percebido, pois negam a realização de saltos que fujam desta seara, visto a discordância e o risco de ridicularização. Percebe-se que de fundo, assentados estão na representativa fórmula de William Blake: ´´A verdade nunca pode ser dita de modo a ser compreendida sem ser acreditada´´. Entretanto o problema, nestes casos, é que geralmente no ´´óbvio´´ não está o foco da polêmica e discussão, relegando ao ceticismo quase como que um modo privilegiado de não expressar ´´um posicionamento´´.
 
Contudo, mesmo que o ceticismo marque um lugar de fala seguro e confortável frente às redes de relações de poder capilarizadas, viabilizando uma expressão própria nas mídias sociais. Resulta que em sua forma socialmente percebida, não há como valor positivo a exaltação da dúvida, pois, este se configura justamente devido às contingências existentes no plano das relações sociais em que se expressa. Ao mesmo tempo, vale acrescentar que a presença do ceticismo na consciência se dá como o estancamento de uma recepção puramente passiva das narrativas difundidas pelas variadas estruturas de informação.
 
De um ponto de vista puramente subjetivo, não deixa de marcar a negação da busca por uma resolução responsável das problemáticas que se fazem presentes na vida: visto a incapacidade cognitiva aliada ao caráter de fuga dos incômodos gerados pela incompreensão destes mesmos problemas e o risco de ridicularização.
 
Como diria Cornelius Castoriadis um representativo elemento de crise da participação política e do espaço público como produto da autonomia.
Outros aspectos que marcam o recorte geracional millenium e que fortalece a tese do ceticismo social é a capacidade que esta geração adquiriu de
desvencilhar-se de certas tradições advindas do âmbito familiar e comunitário.
 
Colocando-as em xeque, tudo passa a ser questionável, encontrando-se a um clique de distância, fórmulas ou concepções alternativas aos juízos apresentados pela comunidade como a ´´trilha correta´´.
 
Um outro elemento estarrecedor e notável para fins da reflexão elaborada neste ensaio,é a mudança progressiva da representação do papel do professor nesta era da informação, que passa cada vez mais de ´´detentor´´ para um ´´facilitador´´ do conhecimento — as falácias por ventura expressas em uma sala de aula, por exemplo, passam ser perquiridas quase que na sua imediata consumação.
 
Ademais, mesmo que insuficiente e problemático, o ceticismo social configura-se por um lado, como um espaço que viabiliza um tipo expressão individual dos millenials, mesmo que de forma negativa diante das problemáticas da vida. Por outro lado, é capaz de produzir modos mais irônicos ao lidar com estas mesmas problemáticas — no caso em questão a memetização do combate a pandemia de COVID-19.
 
Meme como Ação Social
 
Richard Dawkins definiu Meme em seu livro O Gene Egoísta, enquanto imitação: um tipo de informação transmitida entre seres vivos, cujo desenvolvimento possui maior independência em relação aos processos genéticos, porém com capacidade replicadora tão potente quanto a do próprio DNA. Nesse sentido, os memes podem ser definidos como unidades de informações culturais que se replicam nas mentes dos indivíduos humanos. O conjunto de meme agregado e imitado coletivamente nas sociedades humanas, identifica-se com o que a antropologia de matriz sociocultural denomina de cultura.
 
Dawkins, partindo da percepção de meme, identifica na sua versatilidade em evoluir, um dos fatores chaves de sucesso da sua alta replicação — como pode ser atestado pela diversidade cultural e a respectiva imponência dos indivíduos humanos sobre outras espécies.
 
A reflexão dawkiniana, longe de se preocupar em explicar os fenômenos sociais partindo de seus próprios sentidos, leva o interlocutor a vislumbrar sobre a possibilidade de uma memetização dos próprios organismos biológicos, ou seja, da possível intervenção progressiva dos memes sobre o processo de seleção natural. Manipulando o desenvolvimento dos organismos humanos até sua dissolução em outras forma meméticas, como por exemplo: androides com níveis notáveis de singularidade.
 
Mesmo que a definição sociobiológica de meme seja insatisfatória para a interpretação dos fenômenos problematizados neste contexto, é representativo o sucesso da transposição deste conceito para um fenômeno da internet, tendo em vista a característica altamente replicadora dos ´´memes´´ das redes sociais. Nesse sentido, os memes da internet são capazes de inflar as redes sociais tanto quanto os memes da sociobiologia foram capazes de se multiplicar e evoluir com sucesso junto às máquinas de sobrevivência humanas.
 
Entretanto, qual o significado coletivamente realizado de meme no senso comum? Meme é um tipo de brincadeira vulgarizante. O meme, assim, é apresentado em sua forma como uma postagem de caráter lúdico, que mistura elementos que por definição seriam irreconciliáveis, seja da cultura pop e do imaginário popular, ou mesmo, da física quântica e das ciências socias de modo a tornar vulgar seus significados, muitas vezes explicitamente reconhecíveis.
 
O meme é elaborado através da apropriação de significados, sua graça está na engenhosidade de transferir determinadas significações reconhecíveis, para contextos banais do cotidiano e assim realizar a hipervulgarização do que antes poderia ser apenas: uma notícia, um pensador clássico, uma fórmula matemática, uma interpretação célebre de um ator hollywoodiano ou fato isolado ocorrido no Big Brother Brasil — agora um meme.
 
A vulgarização pode alcançar múltiplas possibilidades e ser tamanha de modo a figurar o ´´meme do meme´´. Esta brincadeira vulgarizante, transformou-se em uma das grandes atrações das redes sociais, de tal modo que podemos afirmar que grande parte da atenção dos millenials se volta para participar dessas brincadeiras.
 
Neste sentido, percebemos que as redes sociais cotidianamente são massivamente infestadas por memes, seja através de páginas especializadas em sua produção ou por iniciativa de pessoas comuns que conseguem com maestria se apropriar dos fatos da vida para memetizá-las. Todos os dias, fluxos incessantes de memes alimentam a internet.
 
Esta infestação não seria possível se os entusiastas e consumidores destes tipos de postagens, não compartilhassem ou deixassem de procurar estes conteúdos, muitas vezes facilitados pelos próprios servidores das mídias sociais, que diga-se de passagem, tem como maior capital a capacidade de capturar a atenção das pessoas.
 
O que importa para nós neste contexto é a influência que estas brincadeiras possuem na composição do imaginário millenium. Pois, como vimos o ceticismo social pode operar como uma forma de negação dos dados apresentados pelas estruturas tradicionais de informação, por outro lado, os memes marcam a apropriação destas mesmas problemáticas de modo a vulgarizá-las ou tratá-las com ironia.
 
Do mesmo modo que em contextos onde são compelidos a emitirem um posicionamento partidário, mostram-se como donos da ´´sensatez´´ firmando-se no óbvio, em ambientes em que a pressão social não é sentida, brincam de vulgarizar estas problemáticas de modo a amenizarem sensações incômodas que a negação de um posicionamento sobre algo que não se conhece bem pode gerar.
 
De um ponto de vista weberiano, podemos afirmar que a realização dos memes trata-se explicitamente de uma ação social, visto que sua produção e compartilhamento massivo tem como referência a relação com outras pessoas presentes nas redes sociais. Mas não se enquadra em nenhuma das tipologias descritas pelo autor, pois marca um tipo de idiossincrasia destes tempos de relacionamentos remotos e construções de significações imaginárias através da interação com o mundo virtual. Nesse sentido, poderíamos definir esta ação social como de conversão.
 
Visto converterem problemáticas de natureza complexa e que racionalmente são mal compreendidas na contemporaneidade, em imagens ridicularizadas, porém de fácil leitura e acompanhadas, claro, com a possibilidade de produzir afetos de caráter orgástico. O problema é que da dinâmica da construção do imaginário coletivo, a produção de memes enquanto ação social de conversão, pode resultar na prática, em expressões vulgares no cotidiano.
 
Memetização da vida
 
Em que sentido podemos falar de um processo de memetização da vida? Levando em consideração a complexidade da vida humana e os diversos modos de socialização, tratar de um processo de memetização da vida é sobretudo compreender a influência que este mundo virtual possui sobre a construção do imaginário social. Nesse sentido, longe de se limitar aos conteúdos disponibilizados na internet.
 
Podemos incluir nesta seara o conjunto de interações realizadas pelo indivíduo que influem na formação de sua subjetividade, consequentemente, modos específicos de conjecturar a vida em seus múltiplos aspectos. Entretanto, esta interação longe de ser solitária — mesmo que exista tal sentimento ou percepção alheia ao ver uma pessoa em frente a um computador sozinha — só é possível de ser realizada através da participação ativa de muitas pessoas nesse contexto.
 
Pesquisar, ler, curtir, compartilhar, comentar, conversar, são dados de imediata percepção quando paramos para observar as mídias sociais. Entretanto, quantos afetos, reações, alianças, embates e reflexões não rendem a participação ativa das pessoas nestas interações? Admitindo a riqueza para vida social que as mídias sociais trouxeram ao mundo contemporâneo, nosso olhar desavisado não deveria ver esses meios apenas como de ´´comunicação´´, mas passar a considerá-los também como meios de socialização.
 
Pois, vem contribuindo ativamente para a formação da subjetividade humana, abrindo margem para transformações e criações de novas formas de sociabilidade.
 
Entretanto, longe de reduzir a riqueza de fenômenos existentes nesta descrição particular, sobre estes processos sociais, é necessário enfatizar a percepção sobre o que denomino de memetização da vida, visto ser um fenômeno da complexa influência do mundo virtual na composição das significações imaginárias dos indivíduos, capazes de instrumentalizá-las para representar e criar novas identidades sociais.
 
Outrossim, vale dizer que os tópicos anteriores se confluem para compreensão deste fenômeno marcando assim uma síntese preliminar das ideias expostas até o momento neste ensaio.
 
Considerar o mundo virtual como um espaço de influência pode dar a entender ao leitor que esta é uma influência verticalizada sobre o indivíduo. Contudo não devemos nos esquecer que enquanto espaço são as próprias pessoas que levam para rede suas percepções de mundo.
 
Sendo assim enquanto vetores de uma série de valores sociais, sem discutir a profundidade ou superficialidade, há um enorme ganho de velocidade na atualização do que está acontecendo no mundo e com as pessoas em nossa volta. Entretanto longe de se reduzir as expressões banais da vida, como: reclamações, notícias, manifestações, elogios, novidades, fofocas, marketing, etc.
 
Também vivenciadas no cotidiano distante das telas. O mundo virtual cria suas expressões próprias, como o caso dos memes, jogos on-line, produções artísticas independentes, capazes de multiplicar a experiência semiótica dos indivíduos. Interações via streaming, fóruns e chats que podem reunir comunidades em volta de tópicos de interesse comum em uma temporalidade particular.
 
Longe de reduzir a pornografia, há um ´´tesão´´ próprio proporcionado ao indivíduo quando se relaciona com as formas peculiares do mundo virtual, em termos psicanalíticos, há uma sexualidade pujante nas interações entre indivíduo e o espaço cibernético.
 
Ademais, o mundo virtual demonstrou várias vezes ser um espaço onde se coloca valores e percepções de modo a viabilizar a formação de opinião e repensar fatos da vida social, presentes no imaginário coletivo. Pensemos no caso Georg Floyd, que ao ser violentado e ter a filmagem do ato massivamente compartilhada pelas mídias sociais, foi capaz de trazer a tona o sentimento de revolta de milhares de pessoas, levando quase que instantaneamente a diversas mobilizações nas ruas contra o racismo e violência contra afro-americanos neste momento de pandemia.
 
Não deixa de ser simbólico em meio estas manifestações por justiça social, diversas pichações nas ruas a sigla ´´BLM´´ trazida inicialmente a hashtag de Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).
 
Entretanto, longe de reduzir este meio de socialização a um filtro de fatos da vida social. Gostaria de acentuar a capacidade mistificadora da vida, propiciada pelas possibilidades presentes nos espaços virtuais de multiplicar a experiência semiótica dos indivíduos. Pensemos nos memes enquanto um conjunto de significados que se conjugam e se sobrepõem com uma intenção específica. Só existindo no mundo virtual sua ´´concretude´´, capaz de deslocar problemas da vida para universos alternativos comparáveis aos mundos criados pela ficção literária.
 
As possibilidades de formatação são tão amplas quanto a capacidade criativa humana. Entretanto, por mais que a forma e os temas memetizados sejam dos mais diversos possíveis, o exercício e a intenção com que se realiza estas postagens são essencialmente as mesmas: converter para vulgarizar. Nesse sentido, pensemos agora, na replicação massiva e o prazer com que se consome estas postagens todos os dias.
 
A capacidade do meme vulgarizar as problemáticas da vida, expressas através de diversas postagens compartilhada pela internet, como era de se esperar, teve como alvo a Pandemia de Covid-19. Como consequência o alarmismo apocalíptico da grande mídia transformado instantaneamente em piada.
 
Agora, em que medida podemos falar que esta ação social conversiva extrapola as fronteiras do mundo virtual para memetizar a vida? Primeiramente a partir do momento que admitimos a existência de ações que expressam o desprezo e a insignificância deste contexto pandêmico.
 
De pano de fundo temos o ceticismo social, que estanca a possibilidade de elaborações comprometidas com os problemas reais, por outro lado, a memetização produtora da vulgarização e representação caricata destes mesmos problemas. O efeito imediato da conjunção destes fatores reflete na anulação da força coercitiva das normas sanitárias, abrindo margem para comportamentos nocivos à coletividade como é o caso das festas.
 
Contudo, o poder de influência e as intensidades de como estes fatores se expressam, dependerá sempre do contexto e das forças sociais atuantes sobre o indivíduo como: família, religião, estado, personalidade e seu campo pessoal de socialidades.
 
Entretanto a pertinência deste fenômeno se justifica por algumas conjunturas sociais contemporâneas que configuram a memetização da vida como uma forte tendência sobre a geração millenium. Passarei sucintamente a abordá-las:
 
a. Esvaziamento do espaço público: A esfera pública enquanto um ´´mundo comum´´ de preocupações e responsabilidade por parte dos cidadãos se vê cada vez mais esvaziado e enfraquecido, se levarmos em consideração alguns elementos, como: diminuição da consciência coletiva, problemas sociais vistos como individuais ou pessoais. Uma perspectiva paternalista do estado conjugada a uma ausência de responsabilidade da sociedade civil sobre os problemas coletivos que os afetam. Desinteresse pelo debate político e sensação de distanciamento das instituições políticas-jurídicas.
 
b. Era da informação: Com a difusão das tecnologias e mídias sociais, o acesso à informação é visto como item de necessidade básica pelas pessoas. E a exclusão desta realidade é sentida como estar à margem dos modos contemporâneos de se comunicar, acessar bens e serviços, e consequentemente da própria sociedade.
 
c. A alienação da liberdade: a liberdade é associada estritamente com o poder econômico de consumir. Tomada como ideal, desloca o ímpeto criativo das pessoas para uma participação consumista no mercado, este último entendido como campo de satisfação dos desejos e da realização humana.
 
d. Poder econômico real limitado: a própria estrutura econômica produz desigualdade e a progressiva limitação do que é entendido como liberdade. Sendo assim, para maior parte dos jovens e em maior medida, haverá uma recorrente experiência da impossibilidade ou frustração da realização do que é entendido como vontade, ou seja, o desejo entendido pelo self como ´´escolha´´.
 
Situado nesta conjuntura e longe de ser apenas um produto socialmente determinado em sua totalidade pelas instituições que prescrevem ao indivíduo valores e performance a serem introjetados em seu ser. Na busca pela sua satisfação pessoal, encontra novos modos de expressão que produzem descontração e são capazes de afastar o mal-estar gerado pelas barreiras impostas à sua ´´liberdade´´. Sendo assim, a vulgarização própria dos memes, é transferida para a vida real através da ridicularização pessoal, formas idiotas de desafiar a física, comportamentos que tem como foco o prazer de ser aclamado na rede como meme. Deste ponto de vista, os comportamentos simulam o processo de vulgarização do meme virtual, mas agora através de práticas na vida cotidiana.
 
Contudo, mesmo que vulgares e ridicularizantes, não deixam de ser livres das pressões sociais e potencialmente capazes de adquirir algum prestígio através de sua espetacularização. Além desta, sem dúvida é possível de se cartografar muitas outras ações que são férteis, quando observadas a partir deste contexto. Entretanto, agora usando uma expressão consagrada pela teoria crítica, o que denomino de memetização da vida, em seu maior grau de intensidade, trata-se da reificação do indivíduo para com as próprias brincadeiras realizadas no espaço virtual.
 
Deste ponto de vista, não são os memes que vulgarizam a vida, mas as pessoas que se vulgarizam enquanto memes. Por isso, o sucesso desta prática comumente vista na internet, não deixa de marcar uma certa resistência ao ingresso do indivíduo à vida ´´adulta´´ (ou a prorrogação cada vez maior da adolescência) e explicitação do caráter niilista de nossos tempos, cuja marcha nos arrasta para um futuro que não acreditamos ser melhor do que o imperfeito presente que vivemos na atualidade.
 
Rituais Pandêmicos: As Festas da COVID-19.
 
Van Gennep em seu clássico Ritos de Passagem demonstrou quão composta está a vida humana pelos rituais. Em sua perspectiva, os momentos solenes que marcam a passagem de status, de um indivíduo para o outro é possível de ser encontrado em todas as sociedades humanas. Entretanto, um olhar mais atento sobre nossa vida, perceberemos que cotidianamente realizamos rituais, executados com as mais variadas finalidades.
 
Acordamos, fazemos o milagre da manhã ou simplesmente corremos para se arrumar para ir trabalhar, seguimos as regras de etiqueta ao cumprimentarmos um colega, chegando a determinada hora do dia paramos para almoçar, fazemos a ciesta, retornamos ao trabalho respeitando o ambiente conforme é prescrito neste ritual, tiramos alguns poucos minutos para conversar na copa, mas antes que alguém chame atenção, retornamos aos nossos postos até que o expediente termine.
 
Chegando em casa, relaxamos e paramos para pensar se cumprimos todos os requisitos do ritual cotidiano. Ficamos preocupados se deixamos passar algum detalhe e buscamos fazer algo para compensar qualquer falha.
 
Rituais são por excelência compostos por relações interpessoais e regras que orientam o comportamento do grupo de pessoas em torno de finalidades específicas. Contudo, longe de serem harmônicos podem ser expressões de conflitos e ambivalência. Nesse sentido, uma pessoa que não está feliz em seu emprego pode, conforme as regras de saída desse rito, comunicar o seu superior e cumprir devidamente o aviso prévio com alto desempenho ou por outro lado começar a descumprir todas as regras deste ritual até ser excluído deste meio.
 
Nesse sentido, somos sensíveis aos rituais, criamos o recorrente, organizamos nossa rotina em torno de um ritmo, cíclico ou espiralado por excelência.
 
Entretanto, longe de ser apenas um conjunto de práticas, acompanhadas delas estão um conjunto de significações. Voltando ao exemplo do trabalho, conforme os gurus do mundo das corporações, uma organização para ser bem sucedida deve incutir em cada funcionário o seu propósito — visão, missão, valores — e a percepção imediata deste funcionário sobre a importância que seu trabalho possui para o desenvolvimento das atividades da empresa como um todo.
 
Deste ponto de vista, estes gurus incentivam práticas de engajamento e motivação dos funcionários através de uma política de compartilhamento de crenças e práticas comuns denominada de ´´cultura organizacional´´.
 
Além destes elementos, os ritos reforçam os valores, tipos de relações e significações postas na construção do sentido coletivo do próprio ritual. Então, como podemos interpretar o aspecto ritualístico das festas em tempos da pandemia Covid-19?
 
O primeiro aspecto que me chama atenção em algumas destas festas é a alta capacidade de organização. No caso de eventos executados através de mobilização coletiva via redes sociais, onde todos são encarregados de contribuírem com os arsenais de bebidas, narguilés, drogas, cigarros que serão compartilhados entre os participantes ou pelo menos na roda íntima dos amigos.
 
O engajamento dos participantes sob bandeira de ´´coronafest´´, ´´coronaparty´´, ´´party lockdown´´ ou ´´fiesta covid-19´´ revela o caráter memetizador. Baseado na liberdade de converter de contextos apresentados como ´´problemas da vida real´´ em uma versão escarniçada e banal. Podemos falar destas festas, como rituais capazes de produzir a reificação coletiva das pessoas, de forma a se tornar distante a pressão social exercida pela sociedade instituída?
 
Trabalho com a hipótese que sim, visto a alienação da liberdade conjugada a expansão das experiências semióticas proporcionada pelo mundo cibernético… Vale acentuar que é apenas uma opinião, compartilho com C. Castoriadis que a dimensão que o analista social atua não é da episteme (verdade), mas sempre no campo da doxa (opinião), visto as múltiplas possibilidades de observar, compreender e expressar a realidade que extrapolam a capacidade de qualquer indivíduo descrevê-las em sua complexidade.
 
Dando prosseguimento, no que se transforma neste ente cientificamente identificado como vírus no ritual, mas que de fato pouco entendemos? Primeiramente a apropriação dos significados em grande medida não se dá para com a visão descritiva da higth science, mas para os próprios clichês traduzidos pela mídia e as agências estatais sanitárias.
 
Neste sentido o ritual se dá em torno da folclorização da pandemia, mas quanto deste ato se deve ao famigerado baixo risco a esta faixa etária? Mesmo que desacreditada qualquer informação sobre a doença, sem dúvida permanece o resultado prático de não ser acometido de uma crise respiratória como um fator basilar para ocorrência permanente destes rituais durante toda pandemia.
 
Contudo há relatos de jovens que não deixaram de realizar suas festas, mesmo morando na casa de pais idosos e pessoas enquadradas no alto risco. Como também a participação de jovens profissionais da saúde da linha de frente, participando destes eventos. Como explicar esses casos específicos? Bem, nestes casos, como as próprias problemática sugerem, através do estudo de caso.
 
Outro aspecto que podemos ressaltar, trata-se de um sentimento de cumplicidade geracional: festas de millenials, para millenials, entre millenials. Conjugado a esta cumplicidade, reforça-se claro, o sentido de se fazer uma festa enquanto um ambiente de descontração e divertimento. Um elemento possivelmente enfatizado nestes ambientes é a famosa discrição, como também a noção implícita da possibilidade remota de uma intervenção dos agentes estatais sobre o rito.
 
Tratando especificamente de alguns contextos sociais brasileiros, podemos encontrar esta vulgarização reforçada pelo descrédito que determinadas instituições políticas possuem perante alguns setores da sociedade. Chamo atenção para diversas festas, como os bailes funks e os pagodes que ocorreram nos últimos tempos, em regiões marginalizadas como as favelas das grandes cidades. Cujo histórico de uma insuficiência de cuidado por parte do estado, no sentido de promover o bem estar para estas populações é bem conhecido no período imediatamente anterior a pandemia.
 
O descaso das instituições políticas por um lado, aliado a intervenção policial truculenta e o histórico de políticas sanitárias invasivas nestas regiões, reforçam um sentimento de ilegitimidade estatal em controlar as ações sociais destas localidades. Como interdito sobre as festas, que para muitas destas pessoas representam a fuga de uma experiência sofrida, de lutas e resistências frente a um contexto social desfavorável.
 
Por outro lado, tratando especificamente das cidades interioranas de Rondônia, região em que vivo, percebe-se a existência da negação das medidas de isolamento social principalmente a favor de relações com pessoas que são consideradas próximas ou unidas por vínculos comunitários, como por exemplo: vizinhos, parentes e amigos próximos.
 
Soma-se a isso a representação de que os moradores dessas regiões, têm de suas próprias localidades, como locais ´afastados´ das regiões de ´grande´ calamidade, justificando assim, a possibilidade de maior exposição ao contato social devido ao suposto ´baixo risco´.
 
Tratando da geração millenium rondoniense, percebe-se que esta não deixou de promover seus encontros sociais com um círculo maior de ´´conhecidos´´, a exemplo: os piseiros, festas de aniversário, churrascos, tererés, resenhas ou as sociais. Entretanto mesmo que cientes das medidas de isolamento social, negam na prática importância destas no contexto social rondoniense por acreditarem não ser de urgência como em outros locais.
 
Somado a isso, não devemos deixar de ressaltar que as relações sociais interioranas são fortemente marcadas pela cordialidade, cuja sensação imediata de segurança reforça no indivíduo a ideia do distanciamento dos males que afetam outras partes do Brasil.
 
Conclusão
 
A riqueza com a qual o mundo social nos desafia a interpretá-lo faz qualquer analista repensar sobre sua capacidade de conseguir, com algum êxito, ser bem sucedido. Entretanto, não devemos nos esquecer que o exercício analítico não é um ofício solitário, mas viável apenas se construído de forma coletiva e sistemática.
 
Como um grande amigo e professor dizia ´´fazer ciência é trabalho de formiguinha´´. Desta forma, falar de uma conclusão seria uma contradição em termos sobre um conhecimento ainda em construção, mas não deixa de ser uma tentativa de elevar ao mundo das ideias, dos curiosos e dos cientistas sociais, uma ínfima contribuição.
 
Desta feita, preliminarmente acredito que os fenômenos sociais abordados neste ensaio marcam mudanças de paradigmas culturais. Contudo, a direção da mudança sempre será indefinida, improvável. Mas de fato são formas culturais que demonstram a falta de legitimidade das estruturas sociais vigentes, mesmo que restrita a um espaço de liberdade limitado.
 
Em termos darwinistas são variabilidade das formas culturais que se sendo bem sucedidas em sua emergência, podem se proliferar de modo a substituir as formas contemporâneas que possuímos de sociedade instituída.
 
De fato, estes ´´nichos férteis´´ se espalham por todos os cantos da malha do mundo globalizado. Negando explicitamente a sociedade, paradoxalmente, querendo-a em sua máxima realização. A marcha da história continua, mas longe de estar determinadas por leis, o jogo continua aberto à criação e as ações humanas: ´´O progresso constrói estradas retas; mas as estradas tortuosas, sem o progresso, são estradas da genialidade´´ (William Blake).
 
Nesse sentido, o papel social do intelectual, não mais como dirigente, cujo ímpeto remonta à utopia platônica. Mas como um sujeito que busca contribuir com o enriquecimento da consciência e do imaginário coletivo e quem sabe, agregar com seus insights, junto ao processo de construção social que este mesmo analisa.
 
Mas… E quando a busca pelos prazeres da existência coloca em risco o próprio bem estar da vida humana? Sem me alongar neste debate ético. Digo que saber cuidar deveria ser a maior das ciências. Combater idealismos a la Nietzsche é como combater moinhos de ventos, pensando se tratar de dragões, é a excentricidade de uma filosofia acadêmica. Entretanto o mundo nunca foi tão sedento daqueles bons vivants que as pessoas atualmente chamam de filósofos.
 
Bibliografia:
 
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*Diversas reportagens sobre festas em tempo de pandemia.
Direito ao esquecimento

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