Indígenas de RO cobram respostas pela morte de Ari Uru-Eu-Wau-Wau

Em meio a repercussão mundial pelas mortes de Bruno Pereira e Dom Phillips, ocorridas no Amazonas, o assassinato de líder indígenas local continua impune em nosso Estado

Indígenas de RO cobram respostas pela morte de Ari Uru-Eu-Wau-Wau

Foto: Divulgação

 
 
O Brasil e o mundo se chocaram com as mortes, de forma cruel e covarde, do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips, na região do Vale do Javari, no oeste do Estado do Amazonas. 
 
Os corpos foram achados na última quarta-feira(15), após onze dias de buscas que tiveram a contribuição importante de indígenas locais e de outras partes do país, que para lá se deslocaram para auxiliar as polícias a vasculharem uma área entrecortada por rios, florestas e pântanos.
 
No entanto, na primeira coletiva à imprensa, em Manaus, ainda na noite da quarta-feira, com representantes dos órgãos envolvidos nas buscas, os indígenas foram, simplesmente, esquecidos. Apenas, as forças de segurança faziam parte da mesa de entrevistados. 
 
A ausência só foi notada, após uma jornalista estrangeira questionar sobre a situação. A resposta do delegado da Polícia Federal foi ainda mais vergonhosa para o país perante o mundo, ao admitir que foi um ‘equívoco’ os indígenas não estarem participando da conversa com os veículos de comunicação.
 
Essa situação é o retrato de como o Brasil sempre tratou os povos indígenas, considerando-os pessoas de segunda classe, aliás, como são tratadas as minorias que, de alguma forma, ajudaram a construir esse país.
 
Terra de ninguém
 
A confirmação das mortes dos dois ambientalistas, é apenas o fechamento de mais uma trágica história de ativistas que lutam para preservar a maior floresta no mundo. O valor dessa porção verde do planeta é incalculável e é no Brasil que se encontra a maior parte dela. Mas apesar de tamanha importância, a área virou terra de ninguém. 
 
Garimpo ilegal, caça e pesca ilegais, grilagem de terras, madeireiros ilegais, tráfico de drogas, igrejas neopentecostais tentando cooptar tribos inteiras para as crenças deles, invasão de terras dos povos tradicionais, prostituição e enfraquecimento dos órgãos de proteção tornaram essa área uma das mais atacadas e menos protegidas pelo Estado. 
 
No meio de toda essa confusão estão os primeiros habitantes da Amazônia, os povos indígenas. Essa realidade não é apenas no Amazonas, mas em toda a região. Em Rondônia, a violência contra esses povos é um capítulo à parte, em um Estado que tem no nome, Marechal Rondon, a marca de um dos grandes defensores dos indígenas no Brasil.
 
Uma das vozes mais conhecida na defesa pelos povos das florestas rondonienses, é a da ativista ambiental Ivaneide Bandeira Cardozo, indigenista que desde 1992 lidera a Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé. 
 
A indigenista Neidinha, da ONG Kanindé, disse que a violência contra indígenas tem imperado em RO e denunciou que no último dia 12, a casa da família Itú-Eu-Wau foi incendiada por invasores
 
Para ela, as mortes de Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips provam o que há muito vem sendo denunciado em relação à Amazônia. Nessa parte do país, a ausência do Estado, tornou a região um verdadeiro ‘salve-se quem puder’ contra os indígenas e outras populações tradicionais da região.
 
“Essas duas mortes mostram como a Amazônia virou uma região sem lei. A impunidade, as invasões por garimpeiros, madeireiros, caçadores, pescadores ilegais e incentivos de alguns políticos a essas práticas nocivas escancaram como esse Governo trata a vida dos defensores e a natureza. O enfraquecimento da Funai, ICMBIO, Ibama e PF que não têm condições adequada para exercerem seu papel, tem levado a falta de fiscalização e proteção das terras nas unidades de conservação. A impunidade gera insegurança. Vimos em Rondônia populares impedindo a Polícia Militar de levar madeireiros pegos em flagrante delito em uma Estação Ecológica e presos. O caso de Bruno e Dom é demonstrativo da barbárie que se instalou nesse governo, onde o ódio é mais importante que a vida”, declarou.
 
Neidinha aproveitou para lembrar que Rondônia é um dos Estados brasileiros onde os ativistas são mais ameaçados e a impunidade tem imperado quando a violência envolve indígenas vítimas de invasores das terras pertencentes a essas tribos.
 
“A vida de ativistas está ameaçada! Até o momento não temos a solução para o assassinato do guardião da floresta, Ari Uru-Eu-Wau-Wau, ocorrida há 2 anos. A violência e as ameaças só aumentaram desde então. No último dia 12 de junho, um grupo de grileiros invadiu a terra indígena, entraram na casa de uma família indígena Itú-Eu-Wau e queimaram os pertences de todos. A casa só não queimou porque os demais indígenas foram apagar o fogo”, denunciou.
 
Ari
 
Ari Uru-Eu-Wau-Wau morreu no dia 18 de abril de 2020, aos 33 anos. O corpo foi encontrado com sinais de espancamento na linha 625, em Tarilândia, distrito do município de Jaru, interior de Rondônia. O cadáver estava próximo há uma das entradas da Terra Indígena (TI) Uru-Eu-Wau-Wau, a maior do estado.
 
Ari Uru-Eu-Wau-Wau morreu no dia 18 de abril de 2020, aos 33 anos, por espacamento em Tarilândia, distrito de Jaru, e o caso continua sem solução
 
Ele fazia parte da Equipe de Vigilância Indígena que monitora a ação de invasores e protege os limites da reserva. Lideranças acreditam que essa foi a motivação do assassinato e lançaram uma campanha cujo mote é uma pergunta ainda sem resposta: “Quem matou Ari Uru-Eu-Wau-Wau?”. A resposta a essa pergunta, continua aguardando resposta e o crime ainda está impune.
 
Neidinha contou que os indígenas organizam grupos de proteção, chamado guardiões, que monitoram os territórios pertencentes às tribos. A intenção, explicou, e contribuir com o Estado na segurança contra os invasores.
 
“Esses grupos precisam do apoio dos órgãos de proteção, mas o que vemos hoje é que os órgãos estão enfraquecidos, comandados por quem não tem conhecimento e nem experiência na defesa dos direitos humanos e meio ambiente. Tudo nos parece proposital para que não funcionem”, avaliou Neidinha.
 
Para a ativista, o discurso de Bolsonaro culpando às vítimas que lutam pela preservação ambiental quando sofrem violência e a afirmação de que não demarcará terras indígenas, contribui para o aumento das grilagens, desmatamentos e mortes de ativistas. Além disso, segundo ela, a postura dos apoiadores do presidente com uma visão de que devastar é desenvolver, também colabora para a disseminação do ódio. 
 
“Isso é uma evidência da barbárie que vivemos. O aumento das invasões e o desmatamento em Rondônia ligado ao agronegócio demonstram como estes estão equivocados e contribuindo para destruir a economia e o meio ambiente. Necessitamos que estes mudem a forma e o modelo de desenvolvimento da região. O desenvolvimento tem que está atrelado a responsabilidade ambiental e defesa dos direitos humanos para que a Amazonia e os povos da floresta continuem vivendo”, disse.
 
Uma outra preocupação de Neidinha são os grupos indígenas chamados de isolados, aqueles que ainda não tiveram contato com os ‘homens brancos’. Segundo ela, eles são ainda mais vulneráveis devido a ação de grupos criminosos.
 
“Os grupos de índios isolados correm risco de genocídio, devido a toda essa pressão dos invasores e do desmatamento que avança sobre territórios deles. Tem muita terra nas mãos de poucos fazendeiros, essa é uma reflexão que precisa ser feita. Esses empresários atuam em causa própria e não da população. As terras indígenas e unidades de conservação são propriedades do Governo Federal e do Estado, pertencentes aos indígenas e ao povo brasileiro. Portanto, é bom que a sociedade saiba que indígenas não tem título de propriedade, que as terras indígenas e reservas extrativistas são bens coletivos e que contribuem para o equilíbrio climático de todo o planeta”, explicou.
 
Sem estrutura
 
O desprezo pelos povos indígenas, por parte da sociedade e do Estado brasileiro, também é motivo de revolta por parte da ativista Maria Leonice Tupari, que é uma das lideranças ativista de movimentos indígenas no Brasil. Ela afirmou que está solidária com a dor das famílias de Bruno Pereira e Dom Phillips.
 
Maria Leonice Tupari avalia que a atual situação do país encoraja que seja praticada violência contra os indígenas em RO e no restante do país
 
“Como parceiros de luta estamos muito tristes diante dessa perda com tanta crueldade. Morreram desempenhando atividades em benefício de todos nós, povos indígenas, tanto do Vale do Javari, como para o Brasil. Lutaram bravamente pela vida dos nossos parentes isolados e de recém contactados”, lamentou.
 
Ela também faz coro nas críticas relacionadas a falta de estruturas e desmonte pelo qual estão passando os órgãos de fiscalização no Brasil. Para Leonice, essa situação encoraja que seja praticada violência contra os indígenas em nosso Estado e no restante do país.
 
“Nós, indígenas do Estado de Rondônia, estamos vivendo também essa violência que, muitas vezes, são invisíveis ao estado Brasileiro. Como é o caso de assassinato de indígenas, que ficam sem solução. Um exemplo é de Ari Uru Eu Wau Wau que lutou contra as invasões e foi morto. Até hoje, não temos nenhuma resposta sobre quem matou. A Funai diz está fiscalizando, mas se fiscaliza mesmo, porque tem aumentado as invasões nas terras indígenas em Rondônia? ”, perguntou.
 
Outra liderança indígena de Rondônia que está indignada com a forma como estão sendo tratados é Fabrícia Sabanê, que é Coordenadora da Associação das Guerreiras Indígenas de Rondônia-AGIR.
 
Para ela, atualmente, a Funai tem trabalhado muito pouco pela proteção dos territórios indígenas. O que tem sido feito em termos de segurança para evitar as invasões, se deve ao trabalho das próprias comunidades. A coordenadora denuncia o uso político da Fundação Nacional do Índio em Rondônia (Funai).
 
Para Fabricia Sabanê, da AGIR, a Funai-RO está sendo ocupada por pessoas que não conhecem a realidade indígena
 
“A proteção dos territórios está sendo feita pelos próprios indígenas que estão montando grupos de fiscalização para a proteção dos seus territórios. Houve um tempo, em que a Funai foi mais atuante na questão de proteção territorial e seus servidores eram mais engajados tanto na causa indígena quanto em relação ao território. O que vemos hoje é que na Funai os cargos são ocupados por pessoas que não conhecem a realidade indígena e nunca trabalharam com a questão indígena. Tudo se tornou politicagem e os mais afetados são os indígenas. E o atual Governo Federal nada tem feito para ajudar, muito pelo contrário, tem incentivado ainda mais as invasões em nossos territórios, a extração e a mineração ilegais”, declarou.
 
Fabrícia acredita que a posição do Executivo Federal é a raiz da maioria dos atritos em terras indígenas com grupos criminosos e invasores.
 
“Por isso, os crescentes conflitos que acabam tirando a vida dos líderes e também daqueles que nos apoiam nessa luta como foi o caso de Bruno e Dom, entre tantos outros que já perderam a vida por estar do nosso lado nos ajudando nas denúncias”, afirmou.
 
Um dos grandes defensores da causa indígena em Rondônia é o procurador da República, Reginaldo Trindade. Ele disse que a situação desses grupos está como há 522 anos atrás, marcados por espoliação, descaso, exploração, preconceito e tudo que de pior pode significar a relação entre um povo dominante e outro dominado.
 
Veja a entrevista com Reginaldo Trindade:
 
 
A morte dos dois ativistas no Amazonas poderá chamar a atenção do mundo para a situação da Amazônia e dos povos que nela vivem? 
 
Reginaldo Trindade - Sim. E não. Poucas coisas podem impulsionar mais uma causa que o martírio - ainda mais da forma dramática e agonizante como aconteceu. No entanto, incumbirá às instituições e, principalmente, às pessoas de bem não permitir que a bandeira defendida, com a própria vida, deixe de tremular. Nosso desejo sincero é que a morte desses dois guerreiros do bem não tenha sido em vão. 
 
Na sua opinião, órgãos de fiscalização estão sendo desmontados?
 
Reginaldo Trindade - Com certeza. E já não é de hoje. Infelizmente, o desinteresse para dotar os órgãos de fiscalização, sobretudo quando envolve povos da floresta e meio ambiente, não escolhe cor partidária. 
 
A sociedade brasileira vê os povos indígenas como inferiores?  
 
Reginaldo Trindade - Sim. O coração pesa por dizer isso, mas o preconceito é gigantesco e não se vê qualquer política séria para ao menos tentar amenizar isso. O preconceito é, não raro, baseado em ignorância extrema acerca da vida e dos costumes dos povos indígenas, bem como sobre a forma como a Constituição e as leis do país tratam do tema. 
 
O discurso do presidente Bolsonaro é um estímulo aos crimes ambientais na Amazônia? 
 
Reginaldo Trindade - Muito. E também já não é de hoje. Ele não era sequer presidente e já destilava sua pouca boa vontade - eufemismo proposital - para com grupos menos favorecidos. Nesse ponto, ao menos, ninguém pode dizer que foi enganado. Ele está fazendo exatamente o que sempre alardeou. 
 
 
Qual o recado para a população de Rondônia e do Brasil em relação aos indígenas?
 
Reginaldo Trindade - Jamais percam a fé e a esperança por dias melhores. Por mais sombrio que o cenário possa parecer, não deixem de lutar. Existem muitas pessoas de bem nesse país-continente. Dentre eles, alguns seriam capazes de grandes sacrifícios pela causa. Uns infelizmente ainda tombarão….  
 
A reportagem do Rondoniaovivo tentou ouvir representantes da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Rondônia mas, infelizmente, não obtivemos retorno.
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