O DIABO NA CARNE DE MISS JONES: O erotismo com status de arte num clássico pornô – Por Marcos Souza

Filme indicado para maiores de 18 anos é um pornô de 1973 considerado um dos maiores clássicos do cinema erótico

O DIABO NA CARNE DE MISS JONES: O erotismo com status de arte num clássico pornô – Por Marcos Souza

Foto: Divulgação

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É um raro caso em que um filme pornográfico lançado em 1973 tem status de arte por ser uma produção com história e ter uma atriz – Georgina Spelvin – fantástica, que vive uma personagem complexa e libertina quando descobre o seu destino após cometer suicídio.
 
“O Diabo na Carne de Miss Jones” (The Devil in Miss Jones), escrito, produzido, editado e dirigido pelo mestre Gerard Damiano, é um clássico do cinema erótico adulto e um dos três filmes que completam a tríade do início da chamada “Era de Ouro do Pornô”, que iniciou em 1969 e encerrou em 1984. Nesse período, três filmes são considerados “pornô chic”: além de Miss Jones, tinha “Garganta Profunda” (Deep Throat), de 1972, também de Damiano, estrelado pela lenda do gênero, Linda Lovelace – que anos depois disse ter sofrido uma lavagem cerebral quando fez o filme –, e  um dos absolutos, “Atrás da Porta Verde” (Behind The Green Door/1972), escrito e dirigido pelos irmãos Mitchell, que tinha a estrela máxima do pornô setentista, Marilyn Chambers – que deixou a carreira de modelo publicitária para entrar na pornografia, onde fez história.
 
Esses filmes não tinham uma dinâmica de narrativa tão direta e mecânica para as sequências de sexo explícito, como ocorreu no final dessa era, já em meados dos anos 80, quando entrou no mercado o VHS, e as histórias eram bem rasas, sem contextualização dramática ou motivação convincente para os atos sexuais – convenciam mais pelas performances das atrizes, algumas extremamente ousadas.
 
Um filme como “O Diabo na Carne de Miss Jones” tinha uma história de fundo, uma produção esmerada, com ótima fotografia, filmado em película de 35mm, um elenco que segurasse as sequências, tornando-as bem trabalhadas, com ensaio, e o mais próximo do que as motivações dos personagens propunham com suas intenções sexuais, se desvencilhando do artificialismo tão comum no gênero.
 
O grande achado aqui do diretor Damiano está na escolha de Georgina Spelvin como protagonista, uma atriz já com mais de trinta anos, com um corpo excepcional e excelente atriz dramática. Para se ter uma ideia, ela tem uma abertura explícita em que pede a um homem desconhecido que faça sexo com ela – implora. Logo há um corte sutil e vamos antever o que aconteceu a essa mulher antes dessa cena, e os primeiros 10 ou 12 minutos do prólogo são um trabalho de atuação, em silêncio, sem diálogo, só Miss Justine Jones, uma mulher virgem, com problemas existenciais e frígida, que, num momento de fraqueza e “serenidade”, se mata.
 
 
É uma sequência lenta, bem trabalhada, com uma fotografia e iluminação bem trabalhadas, dando ênfase à expressão corporal da atriz e à sua mácula de fazer o que tem que fazer – uma cena muito bem feita e forte dentro de uma banheira.
 
Logo ela surge no limbo, onde vai encontrar um anjo, Abaca, que relata que, mesmo sendo virgem e tendo vivido uma vida considerada “pura”, o seu ato de se matar a condenou, não permitindo que ela passe a sua eternidade no paraíso, porém com a opção de permanecer no limbo ou no inferno. Irritada e vendo que teve uma vida que considerou medíocre, pede então que mereça permanecer como deve no inferno. Porém, o anjo oferece a ela retornar à Terra, com a condição de que personifique a “Luxúria” na busca do prazer que nunca teve antes. Ela aceita.
 
É a partir desse ponto, com quase 20 minutos de filme, que a história toma a propositura do erotismo de impacto, em cenas de sexo explícito. Com Spelvin mostrando que, além de uma excelente atriz dramática, tem uma alta performance sexual desde a primeira sequência, quando é obrigada a perder a virgindade para um homem desconhecido, identificado como “o Professor”.
 
Por ter optado por viver o ápice da luxúria como uma forma de permanecer na Terra, nesse período de libertinagem, que tem prazo e tempo, Justine vai passando por encontros inimagináveis que podem ser frutos de sua imaginação ou mesmo a solidez da realidade, em que o prazer é o que conta. Ela então tem um encontro lésbico – conta que, nos bastidores, ela e sua companheira de cena, Claire Lumiere, que não era atriz, tiveram um romance durante as filmagens.
 
O filme tem a célebre cena da cobra viva – que eu não vou contar – e uma cena marcante por ser a primeira no cinema a mostrar um ménage à trois de forma explícita.
 
Talvez o grande ensejo ao colocar esse filme num patamar alto na sua proposta do erotismo explícito, mas sem ser vulgar ou sujo, seja o diretor criar cenários bem trabalhados (sofisticados) e filmar com uma câmera que permite tomadas suaves, graciosas, e, como o diretor de fotografia, o brasileiro João Fernandes – que usava o pseudônimo de Harry Flecks –, foi feliz em iluminar as cenas com um bom gosto incrível, ao preparar os takes, permitindo que o corpo da atriz Spelvin se tornasse extremamente fotogênico e atraente, exalando uma sensualidade natural que permeia a sua personagem, dando autenticidade à sua busca pelo prazer.
 
 
O final do filme, quando Miss Jones descobre o seu destino após sentir que não consegue mais se livrar da luxúria, tem um propósito punitivo e, ao mesmo tempo, existencial, quando ela tem um único homem visível e ele filosofa diante de sua impotência (literalmente).
 
Uma das fontes de inspiração do roteiro de Damiano para o pornô foi a peça “Entre Quatro Paredes” (Huis Clos), escrita pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre, em 1944, um clássico do existencialismo em que três personagens – um jornalista, uma funcionária dos Correios e uma mulher vaidosa – estão presos eternamente em um único quarto vazio, sem espelho, janelas ou qualquer saída, o que se revela ser o inferno.
 
“O Diabo na Carne de Miss Jones” foi um estrondoso sucesso no seu lançamento, em 1973, divulgado em poucos cinemas – como ocorria com filmes hardcore – para públicos de maior idade, recebeu críticas positivas e foi um dos primeiros pornôs a ser considerado arte pela proposta do diretor em discutir a sexualidade feminina através de uma mulher balzaquiana com crise existencial e que se permite viver através do sexo, e pelo modo como aborda essa história.
 
O clássico depois teve oito sequências de grande sucesso, tendo se tornado uma das maiores franquias do pornô, levando vários prêmios do cinema erótico.
 
O filme – que recentemente recebeu uma remasterização para 4k a partir do filme original de 35mm e teve o áudio remixado em alta qualidade - está disponível no catálogo da plataforma de streaming MUBI – uma das melhores curadorias de filmes premiados e de arte de todo o mundo. 
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