Capa dura - Por Domingues Júnior

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Capa dura - Por Domingues Júnior

Foto: Divulgação

Há uma agenda sendo preenchida diariamente pelas pessoas interessadas em viver e deixar viver. É a agenda cujas páginas diárias contém um verdadeiro interesse pelo dilema das pessoas. As reais necessidades de uma sociedade em frangalhos. Mais do que preencher o calendário de atividades e depois checar se metas e cronogramas se cumpriram, o conteúdo dela tem cheiro, alma, sangue, suor e lágrimas.
 
Há uma outra agenda sendo preenchida por pessoas desinteressadas de gente. Suas páginas tem a cor pálida do descompromisso com a ética, justiça e a humanidade. O calendário é quase um itinerário. Segue à risca compromissos  ideológicos, sectários, mesquinhos e limitados; típicos da visão  distorcida da existência. Coisas, status e “o que que se ganha com isso”, são mais importantes que as pessoas. Aliás, as pessoas não estão nem ali porque essa agenda não está nem aí.
 
Quando chego ao trabalho, na verdade aos trabalhos, tenho tido o cuidado de observar bem a minha agenda. E vigiar se os objetivos técnicos e protocolares, que dão sentido aos valores que compram o pão nosso de cada dia, não se perderam na palidez, apagando-se das cores vivas, do som das vozes, do clamor das gentes, do grito do gueto, da morte na calçada, do berço sobrevivente, das almas viventes.
 
O risco de “o que é que eu ganho com isso” virar pauta, entrar pelos poros, serpentear os desejos, é enorme. Vivemos num mundo assim, onde o sete que já foi perfeito é cada dia mais o dos pecados capitais. Hipócrita é pensar que uma pseudo-bondade pode nos tornar refratários às tentacões do esquecimento do próximo. E do desamor que o precede. Não estamos imunes!
 
O que fazer então? Volto para a agenda que preencho com a própria vida e monitoro meus próprios alagamentos. Estou inundado de quê? A água que sobe ao redor tem vida? Podemos nos saciar ali sem medo? Ou sem perceber também já comecei a poluir meu próprio filtro? Esse é o desafio diário do diário na ponta da minha escrita.
 
Como disse o mestre Mario Quintana: “um homem dos tempos da madeira, escrevendo com caneta de plástico, numa mesa de metal”. Com  a devida permissão poética, preenchendo uma agenda de capa dura e páginas frágeis.
 
 
Benedicto Domingues Júnior
Jornalista, escritor
Direito ao esquecimento

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