PIRARUCU DO MADEIRA: ‘A rua é do povo’, diz Luciana Oliveira após polícia tentar proibir o desfile do bloco

"O bloquinho que não vende nada, que não tem cordas, nem trio elétrico, revelou-se grande e imponente como o peixe que lhe dá nome", diz a jornalista e integrante do Pirarucu

Blog da Luciana Oliveira

17 de Fevereiro de 2020 às 12:21

Imagine uma festa em que tiram o principal elemento da alegria, o som. Só continua se quem tá na festa desafiar o gogó e seguir cantando e dançando. Foi justamente o que ocorreu neste 16 de fevereiro no bloco mais democrático do carnaval de Porto Velho.

 

O bloquinho que não vende nada, que não tem cordas, nem trio elétrico, revelou-se grande e imponente como o peixe que lhe dá nome. Fundado há 27 anos, segundo bloco de rua mais antigo em atividade, nunca havia se submetido à burocracia estatal para ocupar as ruas na folia de momo.

 

Cedeu à ‘burrocracia’ para evitar a interrupção do desfile neste tempo de censura a livros de Gullar, Machado de Assis e Rubem Alves. De uma lista insana de obrigações a um bloco sem finalidade lucrativa, a equipe do policiamento de trânsito usou a falta de grades nas ruas paralelas ao desfile como argumento para acabar com a festa.

 

O acordo para que o bloqueio de vias fosse feito com seguranças contratados pelo bloco, foi recusado pelo responsável da equipe da PM.

 

O povo na rua cantando.

Crianças como em nenhum outro bloco.

Pessoas com dificuldade de locomoção.

Idosos.

A Yara, que perdeu a avó dona Auda, há menos de uma semana, estava lá em sua cadeira de rodas com a mãe, as tias e primos.

Tinha folião de toda parte da cidade.

Uma explosão de cores em fantasias.

Foi uma pororoca cultural regional! Teve a bateria Pura Raça, banda Quilomboclada e banda Puraqué com a participação do grupo As Pastoras.

Teve trupe teatral e com pernas de pau.

Manifesto em defesa dos povos indígena, teve sim!

O frevo ferveu debaixo da chuva que ia e voltava.

Um rio de passos desafiou a ordem de parar.

 

Quando o presidente do bloco, Ernande Segismundo, convocou os foliões à resistência, barreiras e barragens se romperam. À polícia, restou fazer sob a pressão da multidão pacífica, o que deveria ter feito para permitir a felicidade do povo. Com as viaturas, bloquearam as vias paralelas do percurso e assistiram o espetáculo de resistência da cultura popular.

 

O policial que trabalha durante o desfile do bloco Pirarucu do Madeira tem é muita sorte! Nunca houve confusão, porque os foliões são estimulados a brincar em paz e alegria em campanhas como a lançada este ano contra o assédio no carnaval.

 

Até este ridículo episódio, a polícia militar foi amiga do bloco e dos foliões. A verdade é que o poder público deveria providenciar tudo para uma folia de graça e harmoniosa como a do Pirarucu. Na hora do sufoco, a Fundação Cultural bem que tentou cumprir a exigência para o bloco seguir, mas não teve jeito.

 

A verdade é que a prefeitura e o governo do estado tinham que bancar grades, banheiros químicos, limpeza e segurança desse bloco. Não seria despesa, mas investimento num cordão que exalta a tradição. O folião deste bloco é multiplicador de consciência cidadã, faz festa com luta pela democracia e pela cultura popular.

 

A multidão não parou, porque não havia racionalidade na ‘ordem superior’. A banda Puraqué cumpriu mais da metade do desfile só com sopros e bateria, sem som mecânico. Os seis vocais que se doaram à tradição deram lugar a um coro que vai ecoar por muito tempo na história do carnaval da capital.

 

Se foi um gesto de censura em tempos de obscurantismo, falhou.

 

O que fica é o gesto de resistência dos foliões com os ‘Corações Futuristas’ e ‘Bobos em Folia’, da marchinha de Edgard Moraes para blocos com a essência lírica do Pirarucu. Mais que confetes e serpentinas repousam no circuito da Pinheiro Machado. A magia de um desfile histórico do bloco do prazer, a multidão comenta.

 

A polícia militar tem que garantir a ordem e isso ninguém contesta, mas o que a equipe de ontem fez foi ignorar a beleza e a paz que manteve unidos os foliões até o final magistral do desfile. O mais angustiante foi responder a tantas crianças que perguntaram: “tia, por que o bloco não anda?

 

O mais emocionante foi vê-las resistir à espera e à ordem de parar cantando: “eu quero é botar meu bloco na rua!”

Direito ao esquecimento