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Momento Lítero Cultural - Por Selmo Vasconcellos

Por Selmo Vasconcellos

Por Selmo Vasconcellos

20 de Outubro de 2020 às 08:52

Foto: Divulgação

ANDERSON  BRAGA  HORTA – Brasília, DF – Nossas homenagens

Mineiro de Carangola (17 de novembro de 1934), brasiliense desde 1960. Poeta, Contista, ensaísta e crítico literário. Compôs o primeiro poema em Leopoldina, MG, no ano santo de 1950.

 

INVENÇÃO DA NOITE

 

Deste silêncio e desta treva

construo a minha noite

particular e intransferível.

Não preciso inventar as estrelas,

elas cem e brilham por si mesmas.

E à meia-noite uma lua triste

levanta a cara de prata no horizonte

e verte nos meus olhos um choro , um frio.

***

SOL COM CHUVA

 

A chuva são dragões mordendo o tempo,

finos dragões de dentes d’água e vento.

 

O sol, guerreiro que os feriu nos lados

com sete curvos irisados dardos.

*** 

BOLHAS

 

Sobre o céu – invertido lago –

debruço-me, esperando a tarde submergir.

A mão da noite vem e desprega do fundo

as estrelas, que de uma em uma sobem

e rebentam à tona como bolhas.

***

HAICAI

 

a noite tremeu

caiu de repente

Da mão esquerda de Deus.

*** 

CANTO

 

O canto são dois rios confluindo no lábio.

E teu olhar desata as minhas fontes.

*** 

PRECE

 

Sofro de medo de sofrer.

Como custa e como dói crescer.

Saber-me divino,

e temer.

Perdoa-me, Senhor,

a minha pequenez.

***  

UNIÃO

 

À noite a insônia deita-se comigo.

Dessa união nascem meus poemas e minhas olheiras,

meu deslumbramento noturno,

meu fascínio ante o mistério,

meus medos e minhas vagas

difusas frágeis crenças.

***

LIMPEZA

 

O tempo, tricotando as horas,

tece tapetes, tece tapetes.

E na sala indimensional

estende-os sob suas redes.

Alguém se deita, alguém se levanta,

alguém já nada pode.

O pó de sapatos já sem rumo

infiltra-se no assoalho.

Alguém diz: “Sei que nada valho”,

alguém grita: “Sei que tudo posso”;

alguém se levanta, alguém se deita,

e a sala nunca está vazia.

Uma criada muda incessante –

mente circula entre os transeuntes;

vai varrendo as poeiras que jazem.

Lixo que, como toda criada,

sob os tapetes de silêncio

cuidadosamente acumula.

*** 

Direito ao esquecimento

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