ENGANO: Homem vítima de assalto acaba preso por nove meses confundido com ladrão

Trabalhador foi acusado de roubar carro que foi usado por assaltantes que o assaltaram

correio braziliense

18 de Fevereiro de 2020 às 10:56

Foto: Divulgação

Jefferson de Azevedo Barcellos, de 29 anos, foi duplamente vítima em um caso de assalto. Primeiro foi roubado por bandidos em um carro. Depois foi preso acusado de ter roubado o veículo usado para assaltá-lo.

 

Essa história começou em 29 de agosto de 2017, quando Jefferson teve sua mochila com a carteira de trabalho, além de celular roubados, em Niterói, Rio de Janeiro. Um bando, em um Fiesta preto, abordou a vítima e disse para ele passar tudo. Ele obedeceu. Jefferson voltava para casa, no bairro do Fonseca, após um dia de trabalho no Mercado São Pedro, onde é gerente de um restaurante.

 

Se não bastasse o risco, o transtorno, a humilhação do assalto, o pior ainda estava por vir. Dois anos depois, a Justiça decretou a prisão de Jefferson pelo roubo do carro usado para assaltá-lo.

 

Jefferson foi à delegacia e fez um registro de ocorrência do assalto. Em casa, o trabalhador comunicou o caso a seu chefe por mensagem: “Ele saiu rápido, botou a arma na minha cara e pediu o celular”, escreveu o jovem, em arquivos que integram o processo.

 

O problema é que o Fiesta usado no crime, roubado pouco antes de Jefferson ser abordado, também teve uma vítima, que por erro de julgamento virou algoz de Jefferson. O dono do carro, que teve o veículo roubado na cidade vizinha de São Gonçalo, também relatou o caso à polícia. Disse que foi abordado por cinco jovens a pé. Três estavam armados.

 

De acordo com Jefferson, o carro foi localizado, na manhã seguinte ao crime, em Santa Luzia, São Gonçalo. E dentro do veículo estava a carteira de trabalho de Jefferson. O dono do carro afirmou que reconhecia o jovem na foto do documento como um dos assaltantes que estava armado no momento do crime.

 

Jefferson então foi incluído no livro de suspeitos da 72ª DP, mostrado a todas as vítimas de roubos que procuravam a distrital. E, em 2018, o gerente de restaurante foi “reconhecido” pela mesma foto, por uma vítima de um roubo de celular em Niterói. O Ministério Público denunciou Jefferson, a Justiça decretou a prisão preventiva do jovem e ele foi preso no restaurante onde trabalhava, em abril do ano passado.

 

Em julho de 2019, durante audiência no Fórum de Niterói, Jefferson não foi reconhecido pela vítima do roubo de celular. Em dezembro do mesmo ano, a juíza Juliana Bessa Ferraz Krykhtine revogou a prisão preventiva. Mas o gerente continuou preso pelo roubo de carro.

 

Enfim, no dia 6 de fevereiro, no Fórum de São Gonçalo, o dono do carro não reconheceu Jefferson como um dos assaltantes que o abordaram. A juíza Cristiane da Silva Brandão Lima absolveu Jefferson do roubo do carro por ausência de provas, determinando sua soltura, ocorrida cinco dias depois. Mas Jefferson ainda responde, em liberdade, pelo roubo do celular.

 

Foram nove meses de pesadelo. Tive que comer comida azeda para não passar fome, dormi debaixo de chuva e emagreci uns dez quilos. Agora, quero retomar minha vida. Vou tentar recuperar meu emprego no restaurante”, relata Jefferson.

 

Ainda há outro elemento curioso no caso. O irmão de Jefferson foi detido no dia ao ir à delegacia saber o que havia acontecido com o irmão. Everton Barcelos, de 31 anos, descobriu, na 77ª DP, que também tinha contra si um mandado de prisão pelo mesmo roubo de celular pelo qual o gerente foi acusado. A vítima o reconheceu como o segundo assaltante. Everton ainda está preso.

 

Não sabemos como a foto dele foi parar na delegacia. Ele também é inocente”, garante o gerente.

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