Garotos oferecem, nas calçadas de SP, programas para madames

Florinda morreu, e o "Call Boy" argentino teve que passar uma temporada na prisão.

Da Redação

21 de Outubro de 2017 às 09:26

Foto: Divulgação

Nos anos 70, uma série de seis reportagens publicadas no "Notícias Populares" trouxe a público o "trottoir" em São Paulo, prática na qual homens vendiam seus corpos a mulheres sedentas de amor. 

Os repórteres Nelson del Pino e Guaraci Leme acompanharam e viveram entre os rapazes que protagonizavam o "trottoir", palavra francesa que quer dizer calçada, lugar por onde as pessoas passeiam e aproveitam para se conhecerem.

Apontados como atrações noturnas pelas companhias de turismo do mundo inteiro, eles nasceram em Roma e se proliferaram na França, principalmente nos bairros chiques parisienses, como Saint Germain du Prés e Champs-Élysées. Eles são os chamados "Call Boys", rapazes contratados por mulheres ricas, solteironas, infiéis, filhinhas de papai mediante o pagamento após "programa", que podia durar uma hora ou uma noite inteira.

"Homens fazem 'troittor' no centro de São Paulo" abriu a série publicada no "Notícias Populares" em 7 de maio de 1974 e apresentou São Paulo como a primeira cidade do Brasil a importar esse gênero de prostituição.
Para ser um desses homens bastava um bom vestuário, conhecimento de boates finas, amizades com pessoas bem situadas financeiramente e muita dedicação e esforço. Duas coisas foram descritas como importantíssimas. A primeira delas, manter a linha e a boa aparência, pois "freguesa atrai freguesia". A segunda, não se relacionar com homossexuais.

A reportagem do "NP" expôs que nem sempre era fácil identificar um "Call Boy". Abordar rapazes com as mãos na cintura, vestidos elegantemente com um casaco de couro e calça de veludo, à beira da calçada, e que olhavam atento aos carros que passavam em marcha lenta não eram garantia de que se tratava do alvo dos jornalistas.

"Como é que está o movimento, muita mulher?", perguntou um dos repórteres do "NP". O rapaz olhou atentamente, abotoou o casaco e respondeu: "Sai dessa chato, meu negócio é outro". O encontro dos repórteres ocorreu em uma zona inesperada, no caminho da avenida Angélica com a Paulista. Nesse trajeto, avistaram jovens justamente na posição de conquistadores. E um rapaz de óculos mostrou-se acessível ao contato. "Já sei o que querem. Mas, pelo amor de Deus, escondam essa caranga comercial. Já viu, meu chapa, com vocês aqui não pinta ninguém..."

Sem o carro visível, os repórteres acompanharam o rapaz, que alisava a todo momento o cabelo que caia nos ombros e não se mostrava muito favorável às fotos. Mas só fez restrição quando lhe perguntaram sobre as "freguesas". "Sigilo, ou ética profissional, como queiram. Nomes, não...", respondeu o jovem.

Assim ficaram até que um carro apareceu na escuridão. À primeira visão do veículo, os "Call Boys" ajeitavam a gola da camisa e se preparavam para a abordagem –nesse momento o fotógrafo do "NP" teve que se esconder a pedido dos "donos" do pedaço.

Antes de entrar no carro, o rapaz tirou os óculos, olhou para os repórteres e piscou sorridente. O primeiro contato com o grupo motivou a reportagem do "NP" insistir na história.
Em 8 de maio de 1974, na segunda manchete da série ("Call Boy não quer ser confundido com gigolô"), o jornal revelou a situação da vida dos rapazes após um bate-papo informal e difícil com um dos garotos em uma lanchonete da rua Peixoto Gomide.

Após ter sido indagado sobre o porquê de ter optado por aquela rotina e se ela compensava, o rapaz explicou que passava por uma situação difícil financeiramente e por isso esperava clientes ricas, que em geral o procuravam por mais de uma vez.

Apesar das semelhanças, todos os "Call Boys" faziam questão de dizer que, mesmo realizando programas com solitárias damas, não se tratavam de gigolôs. Participar da rotina dos "Call Boys" fez com que os repórteres do "NP" extraíssem histórias para a terceira manchete da série, publicada em 9 de maio. Em "'Call Boy' diz porque é perseguido por madames", o jornal publicou a trajetória de Renée Mauro, então com 29 anos, nascido em Lins (SP), que, em uma casa noturna na Rego Freitas, contou sua infância no Circo Garcia.

Com o pai gerente do circo e a mãe atriz, o garoto se sentiu estimulado a ser artista. A busca pelo estrelato, porém, o tornou um "Call Boy". Após passar pelo Rio e pelo Teatro de Revistas, foi na capital paulista que se envolveu com uma mulher que pagou pela sua companhia. "Foi tudo muito bom, mas acabou...", foi o bilhete que encontrou na manhã seguinte, com Cr$ 200, e que fez descobrir seu novo talento. "Sei lá. Cada um carrega a sua cruz. A minha são as mulheres", afirmou Renée.

Mas nem todo mundo do meio tinha vivido uma aventura. Em "Call Boy se apaixona e mata esposa de advogado", no dia 10 de maio, o argentino Mário Juan Dominguez Gomez expôs um triângulo amoroso turbinado por drogas e que teve como ingrediente até assassinato.

Viciado em maconha, Dominguez começou a morar com um casal: o advogado Pedro Paulo Lavigne e sua mulher, Florinda Mirzrahy Lavigne. Após se apaixonar pela moça, o argentino planejou fugir com ela, mas, flagrado pelo marido, atirou em Florinda e tentou se matar.

Florinda morreu, e o "Call Boy" argentino teve que passar uma temporada na prisão.

A repercussão desta entrevista, aliada a outros relatos de sumiço de rapazes e a golpes aplicados contra as mulheres, levou a polícia a investigar os "Call Boys".

A quinta manchete da série do "NP" evidenciou a atuação policial. Em "Autoridades querem acabar com a onda de 'call boys'", de 11 de maio, mostrou que a preocupação com drogas, violência, prostituição e envolvimento de jovens reforçou a vigilância e motivou o Conselho da Magistratura a revogar a permissão de menores frequentarem casas noturnas e bailes.

A série chegou ao fim em 12 de maio, com "'Call Boy' quer trocar boa vida pelo casamento", em que Juan Carlos de León, ex-hippie da cidade uruguaia de Maldonado, revelara a desilusão de jovem imigrante, que, em busca de uma vida melhor, deparou-se com a fome, a solidão e sentiu-se acolhido por mulheres que buscavam uma companhia na noite paulistana. E guardava um sonho: o de se casar com uma delas.

Foram seis dias em que os "Call Boys" deixaram de ser garotos em esquinas e casas noturnas para ganhar rostos e vida no "Notícias Populares".
 

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