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SAÚDE: Imunização de crianças em queda: por que os pais deixam de vacinar os filhos?

Vacinação de crianças menores de um ano teve seu menor índice de cobertura em 16 anos.

GLOBO.COM

21 de Junho de 2018 às 17:23

SAÚDE: Imunização de crianças em queda: por que os pais deixam de vacinar os filhos?

FOTO: (Divulgação)

Os baixos índices de imunização de crianças no Brasil acenderam o alerta em especialistas. Mas afinal, quais os motivos por trás da decisão de pais que não vacinaram os filhos? Para Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, um dos motivos que explicam o menor índice em 16 anos de cobertura de vacinação em crianças menores de um ano é o fato de que as vacinas estão culturalmente vinculadas à percepção de risco da doença. Quando se trata de doenças erradicadas, a população tem mais dificuldade de enxergar seus perigos.

 

"As vacinas acabam sendo 'vítimas de seu próprio sucesso'. A cultura do ser humano é de se vacinar quando há um risco iminente, quando ele não enxerga esse risco, não trata com prioridade, o que é um equívoco"

 

 

Kfouri cita como exemplo os dados de cobertura da vacina contra a gripe, em 2016, que em três semanas atingiu a meta de 80% de cobertura, quando houve um surto da doença. “Hoje isso não seria possível nem em três meses.”

 

 

Para a pediatra Ana Escobar, consultora do programa "Bem Estar", muitos pais mais jovens ficaram muito longe da realidade de ter uma criança com poliomelite ou sarampo, por exemplo.

 

 

"Não conhecem e nem nunca viram crianças com estas doenças. Por isso, não há um estímulo vigoroso para que compareçam aos postos de saúde com a frequência necessária para vacinar seus filhos. Há pouca informação na mídia sobre a gravidade destas doenças, que de fato diminuíram sensivelmente sua incidência", analisa.

 

 

Na campanha de vacinação contra a gripe de 2018, as crianças de seis meses a cinco anos e as gestantes registram o menor índice de vacinação contra a gripe. A três dias do fim da campanha, apenas 65,92% das crianças tinham sido vacinadas.

 

Segundo dados do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde, nos últimos dois anos a meta de ter 95% da população-alvo com menos de um ano vacinada não foi alcançada.

 

Dentre as vacinas do calendário infantil, apenas a BCG teve índices satisfatórios em 2016 e 2017. A vacina Tetra Viral, que previne o sarampo, caxumba, rubeóla e varicela, apresenta o menor índice de cobertura: 70,69% em 2017. Seguido da vacina de Rotavírus Humano que ficou 20% abaixo da meta.

 

Mas por que os pais deixam de vacinar os filhos?

 

Para Kfouri um impeditivo para a vacinação é o fato de muitas vezes a população e até os profissionais da área da saúde não conhecem a doença para qual precisam se imunizar e consequentemente não entendem seus riscos.

 

"Doenças como rubéola, sarampo e poliomelite foram erradicadas, e não são mais vistas, dificultando que as pessoas enxerguem o risco. Muitas vezes até profissionais da área de saúde deixam de fazer recomendações mais enfáticas [sobre a importância de se imunizar] também por esta falta de percepção."

 

 

Há outros motivos para que as pessoas deixem de se vacinar?

 

Além da percepção do risco da doença, fatores como o horário de funcionamento dos postos de saúde, além da falta sazonal de uma determinada vacina podem ser motivos para a falta de vacinação, segundo Kfouri. Ele lembra que os postos funcionam em horário comercial e nem sempre atendem as necessidades das famílias, cujo os pais trabalham fora.

 

“Os horários nem sempre são os mais adequados, é preciso repensar isso.”

 

Ana Escobar lembra ainda que há uma diminuição da frequência de campanhas de vacinação para doenças erradicadas: "As campanhas de vacinação, feitas com grande frequência na época de erradicação da poliomielite, com intensa propaganda nos meios de comunicação – os mais velhos ainda se lembram do Zé Gotinha- estimulava o comparecimento aos postos. Com a erradicação da Polio e a diminuição da frequência das campanhas, o estímulo para se vacinar diminuiu também".

 

Medo de supostas reações pode contribuir para a não vacinação?

 

Para Kfouri, o público que deixa de vacinar seus filhos por medo das reações é uma parcela desprezível que não impacta os índices de cobertura.

 

Quais as consequências desses baixos índices de imunização?

 

Para a doutora Ana Escobar, não há dúvidas: o risco do retorno de doenças já erradicadas é uma das consequências dos baixos índices de imunização.

 

 

"Observe-se que frequentemente temos tido um aumento de casos de sarampo aqui ou ali, que imediatamente é controlado com campanhas de vacinas. Importante saber que a única doença oficialmente erradicada do planeta é a varíola. Nem a poliomielite está erradicada. Portanto, baixas coberturas vacinais pode, sim, trazer algumas destas doenças de volta", explica.

 

A comunicação sobre a necessidade de se vacinar ainda é ineficaz?

 

Segundo Ana Escobar, apesar dos avanços na comunicação, ainda temos dificuldade nesta área quando o tema é vacinação: "A importância das vacinas só aparece como “explosão” e lembrança de sua importância quando o número de casos para determinada doença aumenta, como o que aconteceu recentemente com a febre amarela."

 

"O 'medo iminente' de adoecer e morrer é que faz as pessoas correrem. O 'perigo remoto e longínquo' destas doenças, aliado à falta de informação sobre as mesmas, não faz ninguém correr. Poucos jovens de hoje sabem o que é difteria, o que causa e por que se morre com esta doença, por exemplo", diz.

 

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