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MORTE DO MERCADO - O solo mais fúnebre do maestro Júlio Yriarte! - Por Antônio Serpa do Amaral Filho

MORTE DO MERCADO - O solo mais fúnebre do maestro Júlio Yriarte! - Por Antônio Serpa do Amaral Filho

DA REDAÇÃO

24 de Janeiro de 2008 às 12:09

MORTE DO MERCADO - O solo mais fúnebre do maestro Júlio Yriarte! - Por Antônio Serpa do Amaral Filho

FOTO: (Divulgação)

Desta vez a guitarra de Júlio Yriarte desafinou, e digo por quê. O relógio marcava meio-dia em ponto quando vieram abaixo os últimos vestígio do antigo Mercado Municipal. Falecia o Bar do Zizi. Testemunha silenciosa do desmonte equivocado do patrimônio cultural, o Presidente Getúlio Vargas a tudo assistiu, quieto e calado, como convém a um busto esculpido em bronze. Um bem cultural tomba morto. No rádio, enquanto escrevo a matéria, a música diz que há mais de mil palhaços no salão! É Máscara Negra em luto pela vergonha de estarmos curtindo o carnaval de insensatez da administração municipal, que mandou ao lixo parte da memória de nossa gente Guaporé. Bado, Binho, Babá, Bainha e Bubu, acudam!! Ernande Segismundo, que lutou bravamente pela preservação do mercado, é o autor intelectual do projeto de revitalização. Não creio que tenha premeditado esse atentado à sua identidade beradeira. Zola Xavier, membro da executiva do PT em Marica/RJ, viu as máquinas perfiladas para o ataque. Mais de meio século de história desmoronou defronte a praça, à vista de todos, à luz do dia. Um pedaço de Porto Velho virou pó, vítima de uma agressão insana. Com os destroços, desceu também à sepultura a memória do lendário Major Fernando Guapindaia, seu iniciador. Ninguém ouviu sua voz solitária pedindo clemência. Nem a Fundação Iaripuna, nem a imprensa, nem os militantes petistas engajados, nem o Iphan, nem o povo. O mercado morreu só, como um cão sem dono. As vozes que deveriam estar ali para defendê-lo, calaram-se, cúmplices de imperdoável equívoco histórico. Três ataques fulminantes botaram abaixo o calendário Mercado Municipal. Primeiro foi o incêndio de 1966, quando foi consumido pelas chamas que se suspeita tenham começado na taberna de Enilson Ribeiro. Antes que se pensasse em restaurá-lo, a administração pública municipal, comandada à época por Sebastião Valadares, o entregou ilicitamente de presente ao Grupo Tourinho, que lhe induziu à morte precoce e construiu sobre sua carcaça o Edifício Rio Madeira. E agora, por fim, o tiro de misericórdia: a destruição completa do sítio residual, a título de construção de um complexo cultural. Com seu gesto, o PT se igualou ao 5º BEC que, ao chegar aqui em 1965, pôs abaixo o Morro do Querosene e tratou com descaso os bens da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. O coturno e a ideologia bateram continência para o autoritarismo. A política de resultado da administração petista tem apresentado um saldo muito positivo, e incomparavelmente superior à gestação de Carlinhos Camurça, graças à competência, à qualidade e à eficiência com que atua em muitas áreas do município de Porto Velho - é verdade. Roberto Sobrinho era um candidato desacreditado dentro do seu próprio partido. Fora dele, tinha apenas o mísero percentual de 1% das intenções de voto. Lutou e venceu. Hoje, recebe 100% de atenção do governo Lula e, por seus méritos, é um forte candidato à reeleição. Até aí está tudo bem. A equipe do professor Roberto está mostrando a que veio, trabalha duro e merece mais quatro anos de crédito. Todavia, neste caso específico do Mercado Municipal, a administração petista carece de um puxão de orelha, porque postou-se soberba, excessivamente autoconfiante e na contra-mão da política de preservação cultural defendida e praticada pela Unesco em todos os quadrantes do planeta. O erro petista é crasso e o preço a pagar proporcional ao dano: a administração Roberto Sobrinho passará à história como aquela que confundiu alhos com bugalhos, revitalização com destruição, e deu o tiro de misericórdia no velho mercado municipal. Nossa admiração pela candidatura Sobrinho não nos impede de dizer que não basta ter boas intenções, é preciso sensibilidade e sabedoria. Não basta ao gestor de esquerda ser um construtor de novos sítios culturais, é preciso saber construir o respeito às tradições do povo. Com dinheiro do PAC, erguer ferro e argamassa não é tão difícil. Árduo trabalho social é construir consciências transformadoras, politizadas e respeitadoras dos bens que dão sentido à vida. Não basta ser eficiente, Maestro Júlio Yriarte, é preciso ter profunda visão histórica da gente para qual o partido governa e trabalha. Chamem sérios consultores do Iphan para opinar sobre o fato, e eles dirão que fomos vítimas de uma tragédia inacreditável. Embasbacar-se com o novo em detrimento do velho não é apenas primário, é prática de anti-memória, anti-luta dos povos, anti-identidade do homem; anti-sustância do ser no tempo e no espaço. Confundiu-se os fins com os meios. Ante o dilema hamletiano de ser ou não ser, a administração petista escolheu o suicídio cultural - o não-ser. A burocracia socialista concebeu o novo como justificativa para matar o velho, quando poderia ter optado duas vezes pelo ser: ser a administração que respeita o passado, preservando a edificação original do bem histórico, e ser o governo que no presente constrói novos projetos para o futuro. A política cultural petista sacrificou de forma cruel e alienante um patrimônio cultural do povo de Rondônia. Teve pressa demais o PT. Um rompante de pragmatismo exacerbado cegou a equipe de Roberto Sobrinho, imobilizou a cautela, a competência e o cuidado dos gestores da coisa pública para com o bem cultural, e desaguou numa catástrofe. Causa espécie que o Presidente da Fundação Iaripuna tenha metido os pés pelas mãos. Uma competente ação na justiça poderia ter embargado a destruição da memória social. Mas a lei não socorre aos que dormem. E o pior é que o Bar do Zizi não foi sacrificado enquanto nós dormíamos. Que fique nos anais: a morte do mercado é o solo mais fúnebre executado pelo Maestro Júlio Yriarte!

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