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ALEXANDRE

POR ALBERTO AYALA

28 de Dezembro de 2018 às 17:11

 

Autor: Alberto Ayala                                                                                       Ação: Flores do Mato                                                                                                      Época: atual

 

 

 

Drama em 1 ato

 

Personagens em ordem alfabética

 

Alexandre                                                                                                                     Clarice                                                                                                              Dona Constança                                                                                                            Evandro                                                                                                                                                                                                                                         Heloisa                                                                                                                                   Marcelo                                                                                                     Olívia

 

CENA 1

 

(Sala modesta. Duas janelas pequenas, cortinas brancas, dois sofás com almofadas, um console, um vaso com flores em cima dele, uma mesa com cadeiras perto da porta, que está aberta.)

 

CENA 2                                    

 

(Entram Alexandre e Clarice.)

 

Clarice (Entrando.) - Chiquinha Gonzaga é uma ótima peça! Eu... fiquei muito feliz da vovó ter nos dado a oportunidade de estar contemplar uma obra artística feita com excelente qualidade. Maravilhoso presente!

 

(Sentam.)          

 

Alexandre (Cruzando suas pernas com elegância.) - Sim. Está com toda a razão, querida irmã. Maria Adelaide Amaral é uma dramaturga muito interessante de estudar e admirar.

 

Clarice - E você, Alexandre?

 

Alexandre (Um pouco surpreso.) - Eu?

 

Clarice - Ainda está com a ideia de querer ser pintor?

 

(Se olham sérios.)

 

Alexandre (Educado.) - Querida Clarice, não é apenas uma ideia. Você sabe que não é apenas uma ideia.

 

Clarice - Alexandre, esqueça esse sonho de querer ser pintor. Esqueça.

 

Alexandre (Calmo.) - Clarice, você sabe que não deixei de acreditar nos meus sonhos. Sonhos são importantes. Você... não nutre sonhos?

 

(Clarice dá uma leve risada.)

 

Clarice - Não sonho acordada. Sonho ao dormir. E... (Maliciosa.) eu não vejo muitos resultados na sua vida, Alexandre. Até agora não é um pintor aplaudido. Ou é, querido?

 

Alexandre - É preciso tempo. Precisamos esperar certas coisas na vida.

 

Clarice (Exasperada.) - Tempo? O tempo é o maior inimigo do homem. Tempo? Não espere nada com muita paciência. O tempo é cruel! O tempo é muito cruel, querido!

 

Alexandre - É uma visão muito pessimista da sua parte!

 

Clarice - Pessimista? Realista, querido. Realista.

 

Alexandre - Não. Você não é uma pessoa que ousa arriscar. Na vida é necessário arriscar. Quem arrisca é uma pessoa corajosa. Uma pessoa que... que ousa acreditar naquilo que muitos não acreditam é uma pessoa revolucionária. Arriscar muitas vezes se torna uma necessidade.

 

Clarice - Arriscar? Arriscar a própria vida, Alexandre?

 

Alexandre (Sábio.) - Não. Arriscar na vida. Não a própria vida. Veja a diferença. Não tente fazer confusão, Clarice. Estou falando de arriscar na vida. É preciso!

 

Clarice (Sem graça.) - Você... fala bem. Parabéns, Alexandre!

 

Alexandre (Leve.) - Não é o meu falar que é difícil. Não quero ser erudito. Eu apenas sou simples. E a simplicidade interior é a maior riqueza de um ser humano. Entende?

 

Clarice (Provocadora.) - A filosofia de um jovem que sonha com algo patético. Sonhar que vai viver da pintura no Brasil é algo patético!

 

Alexandre - Meu sonho não é algo patético. Eu sei que não é, Clarice.

 

Clarice - Quer terminar como Van Gogh?

 

Alexandre - Que pergunta mais fétida!

 

Clarice - Fétida? Alexandre, não seja bobo. Não seja bobo, rapaz. Você ainda é jovem demais para ficar querendo ser um revolucionário. Acha que é fácil ir contra tudo e todos?

 

Alexandre - Eu acredito no meu talento. Eu acredito. E não sou bobo. E vou sim contra tudo e todos. Não para fazer o mal. E sim para mostrar para todos que sou capaz de vencer na vida trabalhando com a minha arte. Por que a minha arte incomoda você?

 

Clarice - Ser artista num país que não valoriza a arte é... (Séria.) É o caminho mais difícil. Não pensa nisso, Alexandre?

 

Alexandre - Eu não devo deixar que os obstáculos acabem com o meu sonho de pintar. Eu necessito transmitir minhas emoções nas telas que pinto. Isso me deixa feliz!

 

Clarice - Acha que vai ganhar dinheiro com a venda dos seus quadros? Acha mesmo? Você sonha com coisas impossíveis. Sempre foi assim. Desde pequeno. Lembra? Eu lembro muito bem dos seus sonhos de infância. Acha que será famoso em vida como Picasso é agora?

 

Alexandre (Seguro.) - Acho! (Pausa rápida. Com calma.)Eu... admiro demais o trabalho de Anita Malfatti. Ela pintou telas esplêndidas! A senhora Malfatti é uma forte inspiração para a minha arte.

 

Clarice - Até Anita Malfatti foi criticada por querer ousar na arte. Não é você é que vai escapar das críticas. Está esquecido do famoso artigo de Monteiro Lobato? Muitos intelectuais não apoiaram a posição modernista da jovem artista.

 

Alexandre - Era numa época totamente diferente. No século XX. E agora... nós estamos no século XXI.

 

Clarice - Agora ficou mais complicado querer ser revolucionário. Tenha certeza disso, Alexandre. E não se esqueça de que a senhora Malfatti não manteve o espírito vanguardista por muito tempo. Entendeu que a arte ousada não era tão fácil de ser aceita no seu tempo. E até hoje não é.

 

Alexandre - Não importa. A minha história é outra. Eu vou ser lembrado nos livros!

 

(Clarice gargalha alto. E o jovem pintor se conserva sério. Há convicção nos olhos dele.)

 

Alexandre - Jorge Amado acreditava no talento dele. E se tornou um escritor de sucesso. Já leu Gabriela, Cravo e Canela? É um romance bastante popular. E até foi adaptado para a telivisão. Lembra da novela Gabriela com a Sônia Braga?

 

Clarice - É diferente. Ele era escritor. Um exímio romancista que soube retratar nas suas obras a vida na Bahia. Raramente um pintor consegue reconhecimento em vida. Raramente, Alexandre.

 

Alexandre - Tarsila do Amaral teve a sua arte reconhecida. Abaporu é uma famosa tela da pintora. Lembra da tela Abaporu?

 

Clarice - Ela nasceu numa família rica. Muito rica, querido irmão. E nós? Nós não somos miseráveis. Graças a Deus! E eu... eu quero mais. E você? Não quer mais?

 

Alexandre - Eu quero. Eu trabalho.

 

Clarice - A vovó quer que você seja médico. Ela vai pagar a faculdade de Medicina para você. Ela é rica. Uma idosa muito rica.

 

Alexandre - Eu não quero o dinheiro dela. Eu não preciso do dinheiro dela, Clarice.

 

Clarice (Irritada.) - Não fale isso, moleque. Não jogue fora uma oportunidade tão boa. A vovó está lhe dando a chance de mudar de vida radicalmente. Não pensa na maravilha que é ser médico? Vai gozar de prestígio. Será convidado para eventos sofisticados. Vai conhecer pessoas importantes. Não pensa na vida confortável que irá levar se for um médico? Ou quer ficar a vida inteira pintando e não ganhando nada?

 

Alexandre (Decidido.) - Você não está me respeitando, Clarice. Está me colocando para baixo com suas duras palavras.

 

(Silêncio rápido entre eles.)

 

Clarice - Eu olho para a revista e vejo mulheres ricas. As roupas delas são lindas. E aí... olho para a minha vida e fico triste. As minhas roupas não são como as roupas das mulheres ricas.

 

Alexandre - A felicidade não está no ter. E sim no ser.

 

Clarice - Pintores que pensam assim. Eu não. Eu quero ter, ter, ter. Na verdade, já sou.

 

Alexandre - É o quê?

 

Clarice (Amargurada.) - Pobre. Vivo numa casa razoável. E levo uma vida comum. Sim, eu acabei de voltar do teatro. Um luxuoso teatro. Mas... nada mudou na minha existência. Nada. Fui apenas assistir uma peça do século passado. Nada mudou. (Para o irmão.) Eu quero é dinheiro. Dinheiro. Poder. Uma posição respeitável na sociedade. A sociedade é capitalista, Alexandre. Não pense que a sociedade é ligada na filosofia, na arte. (Com ênfase.) Não. Ela é extremamente capitalista. E só ver como o mundo está atualmente. O mundo está corrompido pelo dinheiro. Corrompido pelo dinheiro, querido irmão.

 

Alexandre - Eu não preciso da aceitação da sociedade. Não preciso mesmo. Não é ela que vai governar meus atos. Eu não vou deixar que isso aconteça. (Fitando a irmã.) Eu não preciso da aceitação da sociedade.

 

Clarice - Eu preciso. Eu preciso muito. Eu quero sentir o gostinho da vida burguesa. Eu quero, eu quero, eu quero, Alexandre. Eu... (Sorri.) eu quero poder usar vestidos lindos. Vestidos que sejam valiosos. Deitar numa cama confortável. Andar num carro bonito. Viver numa casa bonita. Meu irmão, seja um médico. Por você, por mim. Pelo bem de nós dois. Seja um médico. A vovó quer pagar a sua faculdade. Isso é... algo... um milagre!

 

Alexandre - Eu não vou estudar Medicina, Clarice.

 

Clarice - Os artistas precisam de formação também, querido pintor. Até os pintores. Ouviu, querido?

 

Alexandre - Querido? Não seja cínica. Você está é com raiva de mim. Raiva.

 

Clarice - Estou. Estou. Vai desprezar a vó. Que neto mais ingrato! A dona Constança é rica. Rica, Alexandre. E você? Não passa de um jovem pobre. Sonha alto. Acontece que...

 

Alexandre (Seguro.) - Eu não vou seguir a vontade dos outros. Não vou, não vou, não vou.

 

Clarice - É a sua vó. Uma mulher especial na sua vida.

 

Alexandre - Ela é apenas a minha vó. Não é a minha mãe. E eu sou adulto. Tenho o direito de fazer minhas escolhas. Ou não tenho, Clarice?

 

Clarice (Exaltada.) - Escolhas erradas. Erradas demais. E eu... eu não posso deixar o meu irmão fazer uma loucura na vida dele. (Alto.) Não posso.

 

Alexandre -  Pare de tentar mudar a minha cabeça! Não terá sucesso. Eu vou ser pintor!

 

Clarice - Seja médico. É melhor. É mais seguro ser médico, Alexandre. Pense. Use a sua inteligência. Qual a garantia financeira que terá sendo um artista plástico desconhecido?

 

Alexandre (Com certeza.) - Eu não vou ser desconhecido.

 

Clarice (Com escárnio.) - Não? É muita prepotência, Alexandre!

 

Alexandre (Calmo.) - Não é. É fé no meu talento. Você sabe que eu pinto bem. Você sabe que eu sou um pintor dedicado. Eu não pinto de qualquer jeito. Eu pinto com amor. Eu faço a minha arte com amor!

 

Clarice - Seu estilo estético nem é tão interessante assim. Já vi pintores melhores. E pobres. É claro!

 

Alexandre - Dinheiro não é tudo!

 

Clarice (Com absoluta ganância.) - Dinheiro é tudo!

 

(Alexandre levanta. Clarice também. Segura no braço do irmão.)

 

Clarice - Desculpa! Desculpa, Alexandre! (Faz um olhar de arrependida. Solta o braço do irmão.)

 

Alexandre (Com serenidade.) - Por que  é tão difícil aceitar o outro? Me fala. (Seus olhos pedem uma explicação.)

 

Clarice (Com educação.) - Porque é a vida. A vida não é um mar de rosas. Nunca será, Alexandre.

 

Alexandre (Decidido.) - Eu já vou!

 

Clarice - Vai sair? Acabamos de chegar do teatro. Não está com fome? (Amiga.) Fica! Eu preparo uma comida saborosa. Faço um suco. Eu sei que você gosta de suco de caju. Ganhei uns cajus da dona Joana. Fica, Alexandre!

 

Alexandre (Direto.) - Estou sem apetite. E agradeço pela sua boa vontade!

 

Clarice - Eu já pedi desculpa. Não fique chateado, Alexandre. Não é bom. Eu não quero ficar brigada com você. Mas... eu tinha que falar algumas verdades que você precisa enxergar. Talvez sua insubmissão seja resultado da imaturidade. Os homens demoram a amadurecer. Já as mulheres amadurecem mais rápido.

 

Alexandre - Eu não sou imaturo. Eu sei o que eu quero. E vou lutar para realizar o meu sonho. E... não estou chateado com você. Tire isso da sua mente. E... é até melhor você ficar um pouco sozinha. Tome um banho, faça um chá, leia um livro. É bom espairecer. Seu dia foi... exaustivo, apesar de ter ido ao teatro. Minto?

 

Clarice - Verdade. E tome cuidado, Alexandre! A cidade está muito perigosa.

 

Alexandre - Não se preocupe. Eu vou apenas dar uma volta. Colocar minhas ideias em ordem. Tchau!

 

Clarice - Tchau!

 

(Alexandre sai.)

 

CENA 3

 

(Melodia triste. Clarice sozinha, em pé, cruza os braços, reflete. Penumbra. Clarice senta. Olha com seriedade para o público. Escuridão.)

 

CENA 4

 

(Luz. A porta encontra-se fechada. Alexandre lê o jornal sentado no sofá, parece interessado na notícia. Ouve-se o som da campainha. O pintor levanta, deixa a publicação no sofá e vai na direção da porta e a abre.)

 

CENA 5

 

(Alexandre e Marcelo se cumprimentam.)

 

Marcelo - Boa tarde, Alexandre!

 

Alexandre - Boa tarde!

 

(Alexandre e Heloisa se cumprimentam.)

 

Alexandre - Boa tarde, dona Heloisa!

 

Heloisa - Boa tarde!

 

Alexandre - Entrem.

 

Marcelo - Com licença!

 

Heloisa (Ao mesmo tempo.) - Com licença!

 

(Marcelo e Heloisa entram. Ficam em pé perto da mesa. O jovem pintor fecha a porta.  Se aproxima do casal. Olha com seriedade para os dois.)

 

Marcelo - Não precisa olhar a gente com essa cara. É... é assim mesmo a vida. E eu sei que você é um rapaz que vai dar bons frutos. Eu creio em você, amigo!

 

Heloisa - Tudo vai dar certo. As tempestades não podem fazer você desistir dos seus sonhos. As tempestades passam, Alexandre.

 

Alexandre (Sério.) - Como eles são preconceituosos! Não acreditam no talento de uma pessoa mais jovem. Eu... senti muita dor ao ouvir o organizador do concurso falando que eu não tinha chances de vencer.

 

Heloisa - Concordo! Mas... o importante é que eu e o Marcelo conseguimos escrever você no concurso de pintura. Agora... só treinar bastante e  vencer a competição. Você vai vencer!

 

Marcelo - É verdade. Você vai vencer!

 

(Alexandre sorri. O casal se olha.)

 

Alexandre (Grato.) - Gente, eu... (Sorri contente.) Eu nem sei como agradecer. Vocês são... (Com ternura.) são tão benignos!

 

Marcelo (Amigo.) - Continue sendo o bom rapaz que você é. E você já venceu o concurso. Tenha certeza, camarada!

 

(Melodia suave. Penumbra. Os três se abraçam. Escuridão.)

 

CENA 6

 

(Luz. Entram Olívia e Clarice.)

 

Olívia (Entrando.) - Então... ele não quer aceitar a proposta da dona Constança?

 

Clarice (Entrando.) - Não, Olívia. (As duas sentam.) Eu... eu não sei o motivo de tanta resistência.

 

Olívia - É... é muita coragem do Alexandre. Uma faculdade de Medicina é cara. E ele... ele está tendo um privilégio que muitas pessoas não conseguem, Clarice.

 

Clarice (Animada.) - Ainda bem que você pensa assim, querida. É que o Alexandre está muito empolgado com a pintura. E não está dando valor para as coisas que realmente importam. Fala de coisas grandes e nada. Nada de extraordinário acontece na vida dele. Ele vai e volta do trabalho e pensa que isso é bom. É óbvio que não sou contra ele trabalhar. Você sabe. Sou contra ele ignorar fazer uma faculdade por puro orgulho de homem. Eu... eu não queria falar tanto dos defeitos dele. Só ele que está ficando para trás. O Bruno... lembra do Bruno?

 

Olívia - Lembro sim.

 

Clarice - Está muito focado nos estudos. E... só parou um período por causa do problema que ele teve no fígado. Mas... ele já está estudando novamente. Está fazendo Jornalismo. E o meu irmão? O Alexandre é um homem estagnado. É doloroso ter que falar isso dele. Mas... é a realidade, Olívia. Você não me dá razão?

 

Olívia - Sim. O Alexandre é um bom homem. (Clarice concorda balançando a cabeça.) E ele precisa olhar para a realidade dele. Ele só vai conseguir melhorar de vida estudando, estudando, estudando. Não há outra saída. O ano vai acabar e nada. Nada do Alexandre estudar. Fala que vai ser rico com suas telas e eu até tenho vontade de cair na risada. Sabia?

 

Clarice (Com um gravidade artificial.) - Não faça isso, querida. Ele vai acabar brigando com você.

 

Olívia - Eu sei. Eu sei como o Alexandre é obstinado pela pintura.

 

Clarice - Desde pequeno ele foi assim. Houve uma vez em que a tia Zezé arrumou um estágio para o Alexandre ficar num jornal. Aí o Alexandre foi, escreveu umas histórias lá. Era doido para escrever num jornal.

 

Olívia - Ele escreve também?

 

Clarice - Foi uma fase que ele passou. Dos quatorze aos dezessete anos ele acreditou que tinha que ser escritor. Até que fez um curso de pintura e tomou a imatura decisão de se aventurar no mundo das artes plásticas.

 

Olívia - Ele podia ter feito um concurso. Sentar na cadeira e estudar. O estudo é a única forma de vencer na vida. Não existe outra forma. Ele não não nasceu rico. O único jeito é estudar, estudar, estudar.

 

Clarice - Olivia, estou muito preocupada com o futuro do meu irmão. Eu gosto demais do Alexandre. (Mentindo.) E penso mais nele do que em mim. E peço que... que você fale com ele. Fale com ele, querida. Olívia, você é a única pessoa que pode fazer o Alexandre ver a realidade. Faça ele enxergar a verdade. Ele só... só precisa enxergar a verdade. E aí... ele terá maturidade para agir do modo certo. Você não é a namorada dele? Então fale com ele, Olívia

 

Olívia - Eu vou falar sim, Clarice. Estou vendo a sua sincera preocupação. 

 

 (Clarice sorri agradecida. Segura na mão de Olívia delicadamente. Instrumentos.)

 

Olívia - Fique calma. Tudo vai se resolver.

 

Clarice (Agradecida.) - Obrigada, querida! Obrigada!

 

(Escuridão.)

 

CENA 7

 

(Luz. Clarice está em pé, de costas, braços cruzados, diante da primeira janela que está aberta. Pensa na sua vida. Figurino: Um vestido florido, simples, brincos modestos, um colar, uma pulseira e sandálias mimosas.)

 

CENA 8

 

(Entra Evandro. É um homem musculoso. Seu ar de sedutor.)

 

Evandro (Entando.) - E aí, bonita? Tudo bem com você, princesa?

 

Clarice (Virando.) -  Não, Evandro. (Séria enquanto ele se aproxima dela com sensualidade.) Nem um pouco.

 

(Ele dá um beijo nela. Senta no sofá todo relaxado. Ela fica em pé, seu espírito está perturbado. Sua agonia íntima reflete no exterior.)

 

Evandro - Ontem eu só pensei em ti, Clarice. Fiquei lá no meu quarto lembrando da gente. (Para Clarice, sorrindo.) Deu saudade!

 

Clarice (Sem sentimentos.) - Você estava no samba. Deve ter se divertido muito. Mulheres é que não faltaram. Estou enganada, galã da roda?

 

Evandro - É muita malícia sua, gata. Nenhuma mulher é como você. Parece que nem me conhece.

 

Clarice - Malícia? Eu sei como você é, Evandro. Não consegue segurar a onda e já parte em cima de uma abestalhada.

 

Evandro - Os meus olhos só estão fixos em você.

 

Clarice - Mentira, ordinário Você se deita com qualquer mulher com uma naturaliadde que é inexplicável. Você é um mentiroso! Um mentiroso ordinário!

 

Evandro - Epa! Não vim na sua casa para ser xingado.

 

Clarice -  Todos os xingamentos são poucos para classicar você. Evandro, eu já estou farta de você! Farta! Sabe o que é está farta de uma pessoa?

 

Evandro - Linda, eu não gosto de ver você assim. Não gosto, gata.

 

Clarice (Chateada.) - Assim como?

 

Evandro - Chata. Você não é chata.

 

Clarice - Eu estou passando por muita dificuldade aqui em casa, Evandro. Você não me entende.

 

Evandro - O problema é dinheiro?

 

Clarice - Também. (Pausa rápida.) Eu e o Alexandre não estamos nos dando bem. Ele... ele quer uma coisa que não é boa. Quer ir por um caminho que não vai levar ele para um bom lugar. E ele não liga para a opinião da irmã dele. Ignora ser exortado. Ignora ouvir a verdade. Quer agir por impulso. Vai sofrer se for rebelde!

 

Evandro - Ele quer pintar! É isso?

 

Clarice - É. Quer ser um pintor rico. A vovó Contança quer pagar uma faculdade de Medicina para o Alexandre ser um médico na cidade.

 

Evandro (Surpreso.) - Medicina?

 

Clarice - Medicina. Não é uma oportunidade única?

 

Evandro - Ele nem quer estudar Medicina. Ele quer ser um artista.

 

Clarice - É melhor ser médico do que ser um artista. A sociedade respeita mais uma pessoa que segue uma carreira tradicional. É um fato!

 

(Instrumentos. Os dois se olham. Clarice senta ao lado de Evandro. Ele passa a mão nos cabelos dela. Faz carinho.)

 

Clarice (Calma e segura.) - Eu... eu não acredito nas suas palavras. São tantas promessas! (Com pesar.) E tantas... tantas desilusões. Muitas, Evandro.

 

Evandro (Sério.) - Eu estou arrependido, amor. (Faz um olhar de cachorro querendo cafuné.)

 

Clarice - Não me chama de amor. Eu te peço! Não me chama de amor. Você fala isso para quantas, Evandro? Para quantas?

 

Evandro (Calmo.) - Não faz isso. No fundo... (Sorri.) você me ama. E eu... eu te amo!

 

Clarice - É o Alexandre. É você. É... (Amargurada.) É tudo caminhando para o abismo. Eu me sinto fraca. Fraca, Evandro. Eu quero ter uma vida melhor. Ter dinheiro.

 

Evandro (Com firmeza.) - Foge comigo! Foge comigo, amor!

 

Clarice (Bruta.) - Ficou louco?

 

Evandro (Completamente sincero.) - Eu assumo. Assumo que já errei bastante com você. Assumo. Mas eu quero reparar o meu erro. Eu vou entrar numa jogada aí com um pessoal que é gente da elite.

 

Clarice - Elite? Como assim?

 

Evandro - Eu vou ajudar um homem muito rico nos esquemas dele.

 

Clarice - Esquemas? Que conversa é essa? Esquemas? (Hesitante.) Então... é coisa errada? (Há uma preocupação no olhar dela.)

 

Evandro (Malandro.) - A vida é errada. E todos nós erramos. Mas os esquemas desse empresário não são pequenos. Ele só mexe com coisas grandes. Você precisa ver a mansão dele. E os carros dele são todos importados. Clarice, o cara vive outra vida. Ele anda de avião.

 

Clarice - Particular?

 

Evandro - É. Particular.

 

Clarice (Hesitante.) - É... é droga, Evandro?

 

(Música de suspense. Os dois se olham intensamente.)

 

Evandro - É. É, Clarice. Eu não vou mentir. Ele mexe com drogas!

 

(Clarice fica chocada. E Evandro abaixa os olhos.)

 

Evandro (Com os olhos baixos, parece que está com um pouco de vergonha.) - É coisa errada. Mas é a minha escolha. Desculpa!  Desculpa! Você não merece um homem como eu.

 

(Silêncio. Clarice reflete. Evandro levanta os olhos. Encara a mulher.)

 

Evandro - Desculpa! Eu não sei em que lugar eu...

 

Clarice (Absolutamente decidida.) - Eu vou com você, Evandro. (Há ambição no olhar dela.)

 

Evandro (Surpreso.) - Vai?

 

Clarice (Com ambição.) - Sim. Tráfico de drogas é uma coisa que dá muito... muito dinheiro. Eu cansei de viver uma vida medíocre. Chega! (Assume um ar marginal.) Eu quero sentir o gosto do ter. Mesmo que seja de um modo errado. Não importa. Vai ser melhor do que eu ficar aqui, sozinha, costurando e cozinhando. Não. Eu não vim ao mundo para terminar meus dias vivendo como uma desgraçada. Não. Eu vou ser rica. (Para Evandro com um olhar de apaixonada.) E vai ser com você. Com você, amor.

 

(Evandro sorri. Música.)

 

Evandro - Então... você está disposta?

 

Clarice - Sim. Eu sou mulher de palavra.

 

Evandro - E o Alexandre?

 

(Clarice dá uma risada.)

 

Clarice - O Alexandre vai ter que aceitar a verdade. 

 

Evandro - Eu te amo! Eu te amo, gata! Demais!

 

(Clarice abraça Evandro com vontade. Faz um olhar de bandida. Os dois se beijam. Penumbra. Escuridão.)

 

CENA 9

 

(Luz. Marcelo, Heloisa e Alexandre sentados à mesa que está bem arrumada e repleta de coisas gostosas. Leveza entre os amigos.)

 

Marcelo (Pegando uma maçã.) - Pelo visto o pintor está preparado. (Sorri para Alexandre. Dá uma mordida na maça. Vai mastigando.)

 

Alexandre (Grato, pegando a xícara com extrema educação.) - Verdade, amigo. Estou. (Toma um gole de café. Faz uma expressão de prazer. Deixa cuidadosamente a xícara no pires.)

 

Heloisa (Para o esposo que morde mais um pedaço da maçã.) - Querido, nós esquecemos de falar com o Matos. Ele ficou aqui na cidade por dez dias. E nós nem lembramos de contar para ele que conhecemos um jovem que escreve contos.

 

Marcelo (Caindo em si, ainda mastigando, segurando a fruta.) - É mesmo. Poxa!

 

Alexandre (Alheio.) - Quem é Matos? (Enquanto pergunta, o amigo mastiga apressadamente.)

 

Marcelo (Para Alexandre, segurando a fruta.) - Um velho amigo. Ele trabalha numa revista literária. Você... não escreve contos, Alexandre?

 

Alexandre (Curioso.) - Quem contou isso?

 

Marcelo - A Olívia. Ela... ela foi lá em casa e... (Olha sério para o artista.) E... acho melhor você conversar direito com ela, Alexandre. Agora não é momento mais adequado para falar sobre o assunto.

 

Alexandre (Desconfiado.) - Deve ser coisa séria! Não pode me adiantar do que se trata o assunto? Assim eu já vou pensando em como agir na hora da conversa.

 

(Rápido silêncio. Alexandre, Marcelo e Heloisa se entreolham. Marcelo dá mais uma mordida na maçã. Vai mastigando com o olhar atento.)

 

Heloisa (Calma.) - A Olívia, ela... ela não quer que você seja pintor. Isso é até uma preocupação natural da parte dela, Alexandre!

 

Alexandre (Triste.) - Ela falou isso?

 

Heloisa (Séria.) - Falou.

 

(Instrumentos. Escuridão.)

 

CENA 10

 

(Luz. Alexandre e Olívia em pé, um de frente para o outro.)

 

Alexandre - Não é novidade ouvir de você algo que eu já ouço com frequência. (Grave.) Bastava me apoiar. Só isso, Olívia.

 

Olívia - Apoiar? Você quer largar o certo pelo duvidoso. Isso não é atitude de homem. É atitude de moleque. Como você é capaz de negar um pedido da sua avó? Ela é a sua vó, Alexandre. Mãe do seu pai. Ela é rica. (Com um ar dramático.) E não é qualquer pedido. Você sabe que não é. É um pedido sagrado. Sagrado, Alexandre.

 

Alexandre - A dona Constança nunca gostou do meu pai, de mim e da Clarice. Ela nos rejeitou bastante. Até hoje meu pai não contou o motivo dela nos rejeitar tanto. E eu nem quero saber. E agora... justamente no final da vida dela está arrependida. Quer ser mais humana. O tempo passou. As coisas não são do jeito dela. Não são, Olívia.

 

Olívia - Você guarda mágoas dela?

 

Alexandre - Não. Mas ela não tem o direito de interferir na minha vida.

 

Olívia - Ela não está interferindo, Alexandre. Será que é tão difícil de entender? Ela quer ajudar você. Quer pagar uma faculdade de Medicina para o neto. Vai negar um presente tão...?

 

Alexandre - Tão fora de hora.

 

Olívia - Acha isso da proposta da dona Constança?

 

Alexandre - Acho. E vou até a casa dela. Vou pedir desculpas por não poder aceitar o presente dela.

 

Olívia - Não faça isso. Ela está doente. E... você pode deixar a sua vó pior do que ela está. Coitada da dona Constança!

 

Alexandre - Eu vou lá. O Marcelo disse que ela nem está tão doente assim. E ela é uma idosa sim.. cheia de força é que ela não vai estar.

 

Olívia - Não vá! Se não eu...

 

Alexandre - Você...?

 

(Tensão. Os dois se olham.)

 

Olívia - Eu acabo com o namoro.

 

Alexandre (Firme.) - Acaba?

 

Olívia (Meio mexida.) - Acabo.

 

Alexandre - Eu não vou deixar que uma chantagem acabe com a minha carreira.

 

Olívia - Que carreira? Você é um simples vendedor de loja. E ainda nem entrou na faculdade por falta de grana.

 

Alexandre - Eu tenho orgulho de trabalhar. E eu... eu não tenho dinheiro mesmo para fazer uma faculdade. Mas eu tenho talento.

 

Olívia - Talento não dá dinheiro. (Com dor.) Existem muitas pessoas que são talentosas e não estão ricas. E que nem são reconhecidas como artistas. É triste!

 

Alexandre - Olívia, eu não aceito que a minha namorada seja assim.

 

Olívia - Como?

 

Alexandre - Cética. Muito cética.

 

Olívia - Eu sou mesmo. Não acredito que vá conseguir ficar rico vendendo seus quadros. Eles... eles não são feios. Tenho que confessar! Mas ser pintor no Brasil é duro. É duro, Alexandre!

 

Alexandre - Eu me vejo vivendo uma vida boa em um breve tempo.

 

Olívia - Apenas imaginação. Olhe para a sua realidade. Você não passa de um simples vendedor explorado pelo comércio.

 

Alexandre - Eu tenho visão. E a imaginação não deve ser considerada tolice. A imaginação é... é muito importante na vida de qualquer pessoa. E não importa se eu sou apenas um simples vendedor explorado pelo comércio. Não importa nada disso. Importa é que eu vou vencer. Eu tenho talento para pintar belas telas. Tenho talento para escrever e para ficar rico. Muito rico, Olívia!

 

Olívia - Desculpa! (Com seriedade.) Eu não acredito que você vai ficar rico. Não acredito, Alexandre. Desculpa! Eu... sinto muito em falar isso.

 

Alexandre - Que pena! E eu sei que foi a Clarice que colocou contaminou o seu ser. Não foi?

 

Olívia - Não. Ela apenas me fez enxergar a verdade. A sua verdade, Alexandre.

 

Alexandre - E qual é a minha verdade?

 

(Se olham sérios. Olívia abaixa os olhos. Lágrimas escorrem pelo rosto dela. Alexandre respira fundo. Silêncio.)

 

Olívia (Erguendo o olhar.) - Você é um jovem que quer muito. Muito. Eu só queria viver uma vida normal com você. Ter meus filhos, minha casa... só isso. Você quer outras coisas. Quer fama. Quer viver uma vida luxuosa.

 

Alexandre - E isso é errado?

 

Olívia - Não. É que... a vida não é como nós queremos. Quem me dera se a vida fosse como eu planejasse! Quem me garante que você vai conseguir ser um pintor famoso?

 

Alexandre - A minha fé em Deus e no meu talento.

 

Olívia - Não vem com religião na conversa. Nós não estamos falando de religião. Sem religião, por favor!

 

Alexandre - Vou respeitar você! (Sério.) E Deus, Olívia... Deus não é religião. Ele é Espírito. Os homens que criaram tantas, tantas religiões. Entendeu?

 

Olívia - É melhor... (Rápido silêncio. Fecha os olhos.) É melhor acabar esse namoro. (Abre os olhos.)

 

Alexandre (Sério.) - Você não é a mulher certa, Olívia. Desculpa falar isso!

 

Olívia - Você que não é o homem certo, Alexandre!

 

Alexandre - Acabou?

 

Olívia - Acabou.

 

Alexandre - Então não era amor.

 

Olívia - Eu amei você.

 

Alexandre - Não. (Sorri.) O amor é diferente. Totalmente diferente. Ele é paciente, prudente, poderoso. Quem ama acredita na pessoa amada. Acredita até nos sonhos mais impossíveis dela.

 

Olívia - Você não sabe como é a essência do amor. É um artista e falta sensibilidade no seu interior.

 

Alexandre - Eis o seu maior engano! Eu sou um homem intensamente sensível. Sabia? E você... você não soube reconhecer a minha sincera sensibilidade.

 

Olívia - Suas palavras parecem tão verdadeiras. Mas não são. Eu não vejo sensibilidade em você. Vejo é um ser humano que só pensa em si. Extremamente egoísta.

 

Alexandre - Não. Não sou egoísta. Você que está sendo. Você.

 

Olívia - Pelo visto... pelo visto você não quer aceitar a proposta da dona Constança.

 

Alexandre (Decidido.) - Não. Eu já decidi qual o melhor caminho para a minha vida. E nós não temos mais nenhum laço amoroso. Não é verdade?

 

Olívia (Com dor.) - É verdade.

 

(Rápido silêncio. Alexandre e Olívia se olham.)

 

Olívia - Adeus, Alexandre!

 

Alexandre - Adeus! Adeus, Olívia!

 

(Música. Olívia abaixa os olhos. Penumbra. Ela sai. Alexandre senta no sofá. Respira fundo. Reflete um bom tempo. Escuridão.)

 

CENA 11

 

(Luz. Marcelo, Heloisa e Alexandre em pé, se olham com seriedade.)

 

Heloisa - Como ela teve a coragem de fugir assim?

 

Alexandre - É a paixão. A paixão deixa a pessoa cega.

 

Marcelo - Completamente cega.

 

Alexandre -  Ela deixou uma carta. Pelo menos teve a consideração de deixar uma carta.

 

Marcelo - É. E... amigo, não deixe que nada tire a sua concentração do concurso. Eu e a minha esposa queremos muito que você seja o grande vencedor da noite. Você é talentoso. Merece a vitória!

 

(Instrumentos.  Alexandre sorri agradecido.)

 

Alexandre - Eu vou ser. Tenha certeza. Eu vou ser, queridos amigos!

 

(Escuridão.)

 

CENA 12

 

(Luz. Alexandre e dona Constança estão sentados no sofá. Ela o olha com emoção. Ouve-se o barulho dos pássaros.)

 

Alexandre (Amigo.) - Eu entendo que a senhora se arrependeu dos seus erros do passado. Isso é a coisa mais natural que pode acontecer na vida de uma pessoa. Eu não sou ninguém... ninguém para julgar uma pessoa que reconheceu suas fraquezas. Fraquezas todos nós temos!

 

(A idosa diz que sim balançando a cabeça. Alexandre respira fundo. Parece meio sem jeito de conduzir a conversa.)

 

Alexandre - E... eu tenho que falar a verdade. Minha mãe ensinou para os filhos que falar a verdade é o melhor caminho de achar a Salvação. (Rápida pausa.) Eu não quero estudar Medicina. Eu... o meu desejo para o futuro não é ser médico. É ser pintor. (Com paz.) Pintar telas.

 

Dona Constança - Eu respeito a sua decisão! E... reconheço que a sua mãe teve um papel decisivo na sua personalidade. Queria que ela estivesse viva. Digo isso com toda a sinceridade, Alexandre. Deus sabe o quanto estou sendo sincera!

 

(Dona Constança abaixa os olhos. Silêncio dos dois.)

 

Dona Constança (Levantando os olhos.) - A sua mãe não foi uma mulher má, Alexandre. Não foi. Eu sei que não foi. Eu lembro da Benedita. Tão lutadora! Ela exalava a longanimidade! Minhas antigas empregadas tinham um afeto muito grande pela Benedita.

 

Alexandre - Ela me educou com muita amor, vó. Ela... sempre foi muito amorosa. Calma no agir e no falar. Herdei a mansidão de minha mãe. E a fidelidade de meu pai.

 

Dona Constança - E até hoje você é um homem de caráter. Um homem que exerce o domínio próprio. Um homem que acredita nos seus sonhos. Eu... (Com pesar.) eu deixei de acreditar num sonho meu. E... deixei de viver uma experiência gloriosa na minha vida, Alexandre.

 

(Dona Constança se cala. Está mexida.)

 

Alexandre - Continue, vó.

 

Dona Constança - Eu deixei de viver um grande amor. Um grande amor. (Há nostalgia nos olhos dela.) Ele era um homem simples. Homem do campo. Homem que tinha o dom de plantar, pescar, cuidar dos bichos... um homem que amava a natureza.

 

Alexandre - Vocês dois eram de classes diferentes. Classes com interesses opostos.

 

Dona Constança - Eu era uma moça mimada. Mimada e infeliz. (Pausa rápida para recordar da sua juventude.) Eu era infeliz aos dezessete anos. Sentia uma tristeza enorme, enorme.... mortal. E esse homem apareceu na minha vida. Foi trabalhar lá na fazenda de meu pai. (Sorri.) Ele tinha olhos azuis. E cabelos ondulados. A voz dele era doce. Muito doce! (Fecha os olhos.) Ele cantava, cantava, cantava. (Pausa. Sorri. Abre os olhos. Uma lágrima escorre pelo rosto dela.) E escrevia músicas. Num caderno pequeno. Com lápis. Ele mesmo mostrou para mim algumas composições dele. (Poética.) Belas composições, Alexandre! Belas composições! (Sorri.)

 

(Alexandre segura na mão da vó com afeto.)

 

Alexandre (Olhando nos olhos dela.) - A senhora não viveu esse amor por medo ou vergonha?

 

(A idosa abaixa os olhos. Há agora uma tristeza nela.)

 

Dona Constança - Por vergonha!

 

(Ela levanta os olhos.)

 

Dona Constança - Ele era apenas um empregado de meu pai. Um homem comum. Comum, Alexandre. Que amava seu trabalho simples e sonhava muito ao escrever suas músicas que eram verdadeiras e sensíveis poesias. Ele também era poeta! E não sabia. Ou sim. Não sei se sabia.

 

Alexandre - A senhora se culpa de não ter vivido esse amor?

 

Dona Constança - Muito, muito, muito... muito, Alexandre. Eu fui covarde! Eu liguei para a sociedade da época. Uma sociedade que anulava quem não tinha recursos para gastar com vaidades que não fazem um ser humano feliz. Eu tive tudo e não era feliz. Ele não tinha quase nada e era. Ele era. E eu... eu tive a chance de ser feliz e não fui. Não fui feliz ao lado do homem que poderia ser o grande amor da minha vida. Não fui capaz de assumir uma posição firme. Não fui, não fui, não fui...

 

Alexandre - Passou.

 

Dona Constança (Segura.) - Não. Não passou. Eu sofro.

 

Alexandre - Sofre?

 

Dona Constança - Sofro. Eu... eu vim pedir desculpas para você, Alexandre! Me perdoa, querido!

 

Alexandre (Emocionado.) Eu não tenho raiva da senhora!

 

(Melodia. Os dois sorriem um para o outro.)

 

Dona Constança - Eu tinha ódio da sua mãe por ela ser simples. Lembrava do Onofre. Onofre, o homem que poderia ser o meu grande amor. O homem simples. Casei com seu vô que era um homem muito violento. Que tinha prazer em humilhar a mulher. Tinha ódio do seu pai por ele ter ignorado o dinheiro da família. Ele escolheu viver uma vida mais pacata. E eu... eu não queria isso para o meu filho. Odiava você e a Clarice só pelo fato de vocês dois terem saído do ventre da Benedita. Eu fui... eu fui má! E louca, louca. Louca. Misturei as coisas.

 

Alexandre - Foi má com a senhora em primeiro lugar. Não com a gente!

 

Dona Constança - Verdade! (Pausa rápida.) E a Clarice? Está?

 

Alexandre - Vó, a Clarice... a Clarice fugiu com o Evandro. O namorado dela.

 

Dona Constança (Surpresa.) - Fugiu? Com qual finalidade?

 

Alexandre - A busca da liberdade e da prosperidade. Ela... ela não apoiava a minha carreira de pintor. E fugiu. Via em mim um escape da vida modesta. Isso se eu aceitasse estudar Medicina. Como eu não aceitei... ela fugiu.

 

Dona Constança - Meu Deus! É uma atitude estranha fugir assim. Eu.. eu até ia pedir perdão para minha neta.

 

Alexandre - A senhora já pediu perdão para o seu neto. E está arrependida. Quer mudar. Isso é o mais importante!

 

Dona Constança - Ela não deixou algum contato?

 

Alexandre - Não. Apenas uma carta explicando que fugiu em busca da liberdade ao lado do Evandro. E... da prosperidade. Quer montar um negócio com o namorado.

 

Dona Constança - Esquisito esse sumiço assim... tão de repente!

 

Alexandre - Eu não vou ficar preocupado com ela. Ela já  é adulta. Sabe o que faz.

 

Dona Constança - Posso te dar um abraço?

 

Alexandre (Sorrindo.) Claro, vó!

 

(Os dois se abraçam. Melodia suave. Dona Constança morre nos braços do neto. Escuridão. Silêncio. Tempo.)

 

Voz de Alexandre (Emocionado.) - Ela só queria pedir perdão. Só pedir perdão. E ao pedir perdão... ela alcançou a paz para partir. Ela alcançou a Salvação ao se remir diante de Deus. Que lindo! Que isso sirva lição para todos. Para todos.

 

CENA 13

 

(Escuridão.)

 

Voz - Sete meses depois. O jovem Alexandre participou do concurso de pintura e...

 

(Luz. Entram Alexandre, Marcelo e Heloisa felizes.)

 

Marcelo (Animado.) - Você foi o grande vencedor! Viva ao Alexandre! Viva! Viva ao novo pintor que vai ser o novo sucesso no Brasil e no mundo!

 

Heloisa - Parabéns, Alexandre!

 

(Música suave. Os três se abraçam. Sorriem. Estão contentes. Escuridão.)

 

CENA 14

 

(Luz fraca. Instrumentos. O ator que fez o Alexandre entra. Não está mais caracterizado do personagem. Senta no sofá, cruza suas pernas. Olha para o público.)

 

Ator (Para os espectadores com seriedade.) - O Alexandre acreditou nos sonhos dele. Sua vó, dona Constança, por causa do peso na consciência, quis pagar uma faculdade para seu neto ter direito ao saber. Ele negou entrar na faculdade. Não por orgulho. Não. E sim por uma questão de fé. Fé em Deus. Fé no seu talento. Fé na pintura. Ele se via como um pintor reconhecido. Mesmo que sua irmã Clarice e sua namorada não fossem a favor da ideia dele querer viver da pintura. Hoje... Clarice está presa. Evandro morreu. Foi traído pelos companheiros do crime que viram nele uma latente ameaça. Olívia é mãe solteira. Não dá certo em nenhum relacionamento. O motivo do fracasso na vida sentimental? Ela não sabe auxiliar o companheiro. Não é uma companheira que entende o homem. Ficou depressiva, bebe, fuma e não sabe ser uma boa mãe. Marcelo e Heloisa viajaram. Foram conhecer Paris. E Alexandre... Alexandre é um dos pintores mais bem pagos da atualidade. Não mora no Brasil. Mora na Suíça. É casado e pai de três filhos. Sua esposa é uma conhecida autora de romances históricos. (Com verdade.) Nunca deixe de acreditar nos seus sonhos. Eles não são impossíveis. Não são. Gravem isso. (Levanta.) Desejo que todos vocês tenham seus sonhos realizados. (Sai assobiando.)

 

(Escuridão.)

 

FIM

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Alberto Ayala

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