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Crônica: Um encontro na cidade

POR ALBERTO AYALA

14 de Dezembro de 2018 às 16:22

O homem, elegante, perfumado, desceu do carro com a intenção de tornar-se um ser mais comum, aberto para novas possibilidades, mas essenciais ao seu desenvolvimento como homem. Olhou o céu azul, bonito, repleto de charmosas nuvens.  Lembrou da belíssima música Nature boy. Lembrou também de uma personagem machadiana chamada Capitu. Sorriu com certa nostalgia de época em que lia os grandes romances nacionais sem a mente corrompida pelos pensamentos sujos. Sonhava mais aos dezenove anos. Como sonhava!

 

O carro do advogado ficou estacionado perto de uma mangueira frutífera. Em passos discretos, Heittor observava o caos no trânsito, nos olhares daquelas pessoas que perderam a fé na vida, os adolescentes modernos, descolados demais. Deu um aceno para três idosas que voltavam da Casa de Deus.  Tinham algo diferente que as destacavam das outras mulheres. Com certeza era a luz do Altíssimo na existência delas.

 

O sinal fechou. Cor vermelha. Heittor atravessou a rua na faixa dos pedestres. Viu uma mulher mais velha segurando na mão de um homem muito mais novo. Nos seus olhos, certo estranhamento diante de um casal diferente. Mas o casal não tinha nada de diferente. Era normal. Porém, Heittor guardava em si vários conceitos que já estavam reformulados no vasto século XXI.

 

O sinal abriu. Cor verde. O advogado continuou andando, andando, andando, até que esbarrou-se com um rapaz alto, branco magro e educado. Os livros que o rapaz segurava caíram no chão. Heittor o ajudou a pegar os livros. Pediu mil desculpas. O jovem levou toda a situação numa boa, pediu para Heittor relaxar e os dois foram conversando naquela tarde enquanto caminhavam pela calçada.

 

O rapaz, o doce Alex, não era da cabeça virada. Trabalhava  e estudava. Queria fazer mais pela mãe viúva. E fazia. O seu salário complementava na renda familiar. Alex tinha um sonho. Queria escrever um livro. Para falar a verdade, um romance.  Heittor perguntou qual era o romance preferido dele. Alex respondeu que amava Vidas secas, do reconhecido e talentoso Graciliano Ramos. Heittor sorriu. O orgulho de ter conhecido Alex na rua tomou-lhe por completo. Ficou em êxtase. Puro êxtase.

 

Precisava da força. Da fé. Da determinação dos fortes. E fortes não são aqueles que estão acomodados numa falsa, medíocre sensação de estabilidade. Fortes são aqueles que lutam mesmo diante das dificuldades que manifestam-se todos os dias nas nossas vidas. Heittor entendeu isso.

 

Hoje, Heittor é rico ainda. Mas ele entendeu que a sua riqueza não é mais valiosa que a sua visão positiva para a vida. Alex é um famoso romancista. Seu romance de estreia foi vendido para vinte e quatro países. E ele está feliz.

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