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QUILOMBOCLADA: Banda rondonienses faz uma viagem montada na resistência

A banda saúda a “beradagem” e, por meio da voz rouca de um de seus vocalistas, convida seus antecedentes para protestar

EDNEIDE ARRUDA

30 de Novembro de 2019 às 08:46

QUILOMBOCLADA: Banda rondonienses faz uma viagem montada na resistência

FOTO: (Divulgação)

Criada em 2005, com a proposta de ser um foco de resistência, a partir do próprio nome, a banda rondoniense Quilomboclada, vem aí com um novo trabalho. É um manifesto em favor dos povos indígenas, ameaçados de extinção pelo governo Bolsonaro. 

 

Nesse novo trabalho musical, a ser lançado até o início do próximo ano, a banda saúda a “beradagem” e, por meio da voz rouca de um de seus vocalistas, convida seus antecedentes para protestar, ainda que, com o “coração na mão”. Nessa “toada” de resistência, a banda convida a parentada para fazer uma visita a um mundo novo, sobrevivente.

 

Esta “visita”, por enquanto imaginária, simboliza o chamamento à luta pela própria existência destes povos, espalhados pelo vasto país, que um dia foi somente da população indígena, mas que, há mais de 520 anos (há registros de invasão à terra em 1498, pelo litoral, próximo do que hoje são os Estados do Pará e do Maranhão), vem sendo cruelmente dizimada, pela força do colonizador – estrangeiro, branco, rico e cruel.

 

E o incitamento à resistência está explícito no verso/protesto, em que o vocalista brada um grito de guerra: “E quem destrói nossos sonhos, não vai roubar nossas terras. Aqui tem luta e tem festa. Aqui tem Quilomboclada.”

 

Montada em um Bumba Meu Boi - manifestação popular trazida ao Brasil pelos portugueses, e que muda de apelido dependendo da região do país -, a Quilomboclada propõe uma visita às suas ancestralidade e territorialidade, para defender e afirmar a existência de seus parentes, com suas culturas, valores, crenças, indumentárias, utensílios e terras.

 

Nessa toada, o grupo musical emite a mensagem de que na desorganização, pode “organizar” essa grande “boiada”, ávida por saídas da camisa de força que a sufoca, nestes tempos de obscurantismo, de ameaças à volta da ditadura, de perdas de direitos básicos e até mesmo de ataques à dignidade humana.

 

Como se propusesse um retorno ao ponto de origem, os descendentes dos “Kura”, dos Uru-Eu-Wau-wau e dos Kassupá deixam roncar uma cuíca, em choro de luta de quem quer dialogar com um “boi deitado”, abatido pelo inimigo, mas que, junto com brancos descendentes, ainda pode resistir à destruição de si mesmo, desde que revolucione a sua mente.

 

Assim, resistindo e cultuando raízes, a banda afirma sua identidade e cultura regionais, nada underground. E, quebrando conceitos, trabalha para entregar ao público sua produção musical de resistência, embalada por um som irreverente, similar a quem bebeu na fonte de bandas expressivas, tais como Cordel do Fogo Encantado e Nação Zumbi.

 

Mais de uma década depois de criada, compondo e participando de festivais e shows regionais, a Quilomboclada está pronta para aparecer em outras praças musicais do país e voar, o que parece previdente.

 

Por enquanto, o trabalho poético-musical, estético e engajado dessa banda - que mistura rock pesado com rap, ronco de cuíca, aboio do Nordeste, batuque de terreiros, cantigas de roda, coco e carimbó -, está em laboratório, em fino trato. Mas, os interessados já podem acessar este link (https://www.youtube.com/watch?v=UofAYNv0w2c&feature=youtu.be) e curtir um pouco do que virá.

 

  • Edneide Arruda é jornalista.

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