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Trabalho de artes de alunos é censurado no Ifro de Guajará-Mirim

O professor Marcos Bosquê foi determinado pela direção a apagar todas as imagens

JÚLIO OLIVAR

19 de Novembro de 2018 às 16:07

Trabalho de artes de alunos é censurado no Ifro de Guajará-Mirim

FOTO: (Divulgação)

O professor de Artes Carlos Bosquê, do campus do Instituto Federal de Rondônia em Guajará-Mirim, está sendo vítima de censura. A direção do IFRO determinou que todas as obras elaboradas pelo artista e seus alunos sejam apagadas das paredes da instituição por terem gerado polêmicas junto a fundamentalistas que veem “mensagens obscenas e diabólicas” em algumas peças. Loucuras!

Os xiitas e puritanos é que deveriam ser advertidos pelas celeumas desnecessárias e arbitrárias, que inclusive desestimulam a assertividade do educador; os “do contra” estão no ambiente em que os livres pensamento e expressão são necessários como o respirar. Ou seria o IFRO uma extensão de igrejas?

 

E que igrejas? A arte vai além do hoje, não tem fronteira de tempo ou de templos e nem se fixa em conceitos  rasos de moral. Os artistas renascentistas encheram as igrejas de corpos nus simbolizando quatro facetas da abordagem conceitual sobre a nudez: o nu natural (antes da “queda” no Éden, o puro, “sem pecado e sem juízo”); o temporal (a confiança das pessoas em Deus apesar das vicissitudes representadas pela nossa fraqueza existencial; estamos, afinal, todos nus); a virtude (o arrependimento que nos conduz à inocência, como na cena de Madalena Arrependida nua); e o nu criminal (a arte como uma espécie de denúncia social com relação às vaidades e ostentações).

 

A Capela Sistina é um exemplo de que religião e nudez convivem há séculos. O que seria de Michelangelo? E das produções da arte que se desenvolveram no Barroco? As expressões artísticas diversas, não só escultura e pintura, como também a poesia, a arquitetura, o teatro... Quanta piedade dos que censuram! Porventura alguém faltou às aulas de Literatura e de História? Não! A mente de quem iniciou a censura ao trabalho do professor e de seus alunos parece-nos  ser uma mazela existencial, um campo minado de  ignorância ou um jogo  malicioso. Se há duelo entre o mundo e o céu, voltamos no tempo - ao período barroco - com sua arte de valor inestimável. Então a censura se torna  desnecessária.

 

Anjos nus aludem a sensualização? Mas qual é o sexo dos anjos? O pecado está na cabeça de quem vê errado, e não na criação de Deus. Ou acaso alguém nasce vestido?

 

Como se vê, a arte ocidental calçada nos valores cristãos tem o seu papel de exaltar a criação, e não a luxúria. A arte incomoda somente os incautos! São mundanos que pensam ser cristãos, pois não vêem pecado na exposição de riquezas mal adquiridas, de palácios suntuosos, de ricos que sustentam ainda hoje ranços escravistas. As redes sociais na internet são vitrines de ostentações e futilidades que recebem milhões de likes inconscientes.

 

E para quem pensa que a nudez a ser castigada é fenômeno contemporâneo, lembro  que  as primeiras representações de nus com finalidades estéticas surgiram na Grécia Antiga, através da mitologia. A busca pela perfeição da criação divina levou à instituição de um verdadeiro culto do corpo de proporções ideais que as esculturas de Fídias, Praxíteles e outros artistas eternizaram.

 

Eis o contexto de que nos fala o professor Carlos através de seu trabalho no IFRO. A isso se dá o nome de História, que existe e é imutável apesar das histerias profanas. Será que entenderão ou será preciso desenhar?

Há cerca de um ano, o educador começou  —com autorização da direção do instituto, claro — a estender suas aulas aos corredores do imóvel, pintando —ele e os alunos— uma série de obras contextualizadas à história das artes e, também, à releitura de um clássico de Picasso,  adaptado em alegorias  representando capítulos da ocupação do território que hoje compreende Rondônia.

 

Bosquê merece ser condecorado; é artista e professor daqueles abnegados que sonham “mudar o mundo” com sua sina de esparzir conhecimento. E consegue tal proeza! Tanto que despertou o presente  debate que poderia ser bem interessante se “o outro lado” estivesse disposto a interpor-se apenas; e, não, impor-se! Totalitarismo não combina com educação e aprendizagem. É, ao contrário, a cristalização da má-vontade em aprender e respeitar aquilo que não se conhece.

 

O prisma de quem absorve e viaja nas veredas das artes nunca mais é o mesmo, em contraponto dos que insistem em fechar os olhos e endurecerem-se nas trevas da insensibilidade, da arrogância e do poder de mando, que é o próprio inferno na Terra.

 

Que pena que alguns do IFRO de Guajará não não são exceção. A Freemuse, organização internacional que presta consultoria a ONU, registrou, há três anos, 469 casos de censura e ataques contra artistas, sendo que três assassinatos.

Preocupa muito o modelo de educação que se pretende impor no Brasil, sem arte, sem sociologia, sem educação física... As palavras de ordem são “formar para o mercado”, ou, numa interpretação livre, coisificar as pessoas. As artes que deveriam ser tão essenciais como o á-bê-cê passarão a ser, seguindo a toada do pessimismo vigente, artigos de luxo presentes apenas no universo das elites dominantes, como era antigamente.

 

As artes —mesmo que rudimentares— deveriam ser acessíveis  a todos(as), presentes nas rodoviárias, viadutos, muros de escolas... e cemitérios (onde, aliás, sempre estiveram presentes, inclusive com anjos nus esculpidos em carrara ou bronze).

 

“Diversão e arte para qualquer parte”. Lembra dessa música dos Titãs? Pois é! A geração oitentista do século passado parece que teve mais oportunidades de entender o significado desse clamor: arte é liberdade!

 

 

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