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BACU - José Araujo O craque de futebol e da Caravana Ford

Quando dizemos que o futebol em Porto Velho já foi considerado como um dos melhores da região Norte muitas pessoas duvidam. Agora, quem assistiu o Bacu jogando futebol, não tem a menor dúvida. Aiiás, quem assistiu também José Meireles, Valter Santos, Edu,

DA REDAÇÃO

10 de Janeiro de 2011 às 08:14

BACU  - José Araujo
O craque de futebol e da Caravana Ford

FOTO: (Divulgação)

Quando dizemos que o futebol em Porto Velho já foi considerado como um dos melhores da região Norte muitas pessoas duvidam. Agora, quem assistiu o Bacu jogando futebol, não tem a menor dúvida. Aiiás, quem assistiu também José Meireles, Valter Santos, Edu, Pelezinho, Remédio, Fio, Inácio Soares e tantos outros realmente craques, não pode deixar de ser saudosista. Bom! Bacu cujo nome de batismo é José Araujo se fosse hoje, estaria concorrendo no estilo de jogar bola, com Ronaldinho Gaucho, isso não é exagero não! Deixando o saudosismo de lado, vamos conversar com o motorista da prefeitura municipal de Porto Velho que participou da famosa “Caravana Ford” em 1960. “Na realidade, eu não era integrante da caravana, acontece que o prefeito havia comprado duas caçambas Chevrolet e nós fomos escalados para ir buscar esses carros em São Paulo. Só entramos na caravana em Cuiabá”. Hoje residindo em Fortaleza (CE), Bacu veio a Porto Velho a convite do seu amigo e companheiro de caravana e de clube de futebol o Flamengo de PVH Gervásio para participar das homenagens pelos 60 anos da “Caravana Ford”. “Sinto-me deveras lisonjeado por ter sido lembrado. Não conheço a Porto Velho das Zonas Leste e Sul. Minha cidade ta muito diferente e bonita”

A conversa com o Bacu aconteceu no dia 4 durante os shows que estavam acontecendo no Mercado Cultural, em comemoração aos 29 anos da instalação do estado de Rondônia.

ENTREVISTA

Zk – Onde seus pais moravam quando você nasceu?

Bacu – Nasci no Alto do Bode em 1936 em Porto Velho e fui batizado José Araujo. O morro chamado de Alto do Bode começava logo quando terminava o campo de futebol da Baixa da União por ali aonde hoje existe a Feira do Produtor. O 5º BEC desmoronou o morro para abrir a rua Norte e Sul que é a Rogério Weber hoje.

Zk – Vamos falar sobre sua infância no Alto do Bode, Baixa da União e sobre o apelido Bacu?

Bacu – O Alto do Bode no tempo da minha infância era na época dos ingleses. Inclusive tive um padrinho que morava lá chamado Thomas, o João Moreno morava no “pé” do Morro. Depois passamos a morar na Baixa da União onde tinha o seu Oscar Teixeira aquele que me apelidou de Bacu. Me criei jogando futebol no campo da Baixa da União.

Zk – E o primeiro grande clube?

Bacu – Em 1954 fomos morar no bairro da Olaria e então fui jogar pelo Moto Clube. O Moto Clube foi criado se não me falha a memória, pelo seu Dudu e outros, e em 1954 ele entrou para a Federação de Desportos do Guaporé – FDG. Agora os grandes momentos foram no Flamengo.

Zk – Você lembra quantos títulos ganhou durante a carreira como jogador de futebol?

Bacu – Foram nove títulos assim divididos: sete pelo Flamengo entre esses dois tricampeonatos. Um título pelo Moto e dois territorial.

Zk – Você também jogou em times de outros estados. Por onde o Bacu mostrou sua habilidade com a bola?

Bacu – Fui para O Remo de Belém em 1957, joguei no Nacional de Manaus em 1963 time pelo qual fui jogar no Peru.

Zk – Vamos falar sobre o jogo do Moto Clube X Petrobrás disputado no Maracanã (RJ)?

Bacu – Essa é uma história interessante. Acontece que eu já havia parado de jogar futebol e através do técnico Antonio Nogueira Filho o popular Odete, fui convidado a participar da delegação. Isso porque fui um dos fundadores do Moto. No Rio de Janeiro na hora de sairmos do hotel para o Maracanã o Odete me entregou o material de jogo dizendo que eu tinha que entrar no time, para fazer uma demonstração de como se jogava futebol em Rondônia. A recomendação era para fazer aquele malabarismo que sempre fazia aqui em Porto Velho quando estava de posse da bola. Não me fiz de rogado e mesmo me considerando fora de forma entrei em campo e ainda tive a felicidade de marcar um gol.

 

Zk – Fora esse jogo no Maracanã qual o outro jogo que não sai da sua memória?

Bacu – Simplesmente em Manaus. Naquela época fomos lá e batemos a seleção amazonense, não ganhamos o título, mas, derrotamos o time da casa. Existem pessoas que me questionam até hoje, dizendo que a gente nunca passava pelo Amazonas e sempre respondo. Não conseguimos nos classificar para a outra fase do campeonato, mas, ganhar da seleção do Amazonas ganhamos sim. Acontece que tinham aqueles técnicos que não entendiam bem, treinava um time em Porto Velho e quando chegava em Manaus modificava. O Nanhão quando foi técnico da nossa seleção soube fazer a coisa, convocou jogadores de Flamengo e Ferroviário os melhores times da época e fomos lá fizemos bonito, não nos classificamos para jogar em Belém porque os outros times abriram as pernas para a seleção amazonense e fomos desclassificados no saldo de gol.

 

Zk – É verdade que havia uma grande rivalidade entre o Acre e Rondônia. Quer falar sobre essa rivalidade?

Bacu – O Acre sempre foi nosso freguês, na minha época sempre a gente ganhava, não sei na época de Mario Teixeira da turma mais antiga.

Zk – Contam os mais antigos, que o negócio era decido na base da porrada. É verdade?

Bacu – Em 1959 a seleção de Porto Velho foi jogar em Rio Branco e quase não consegue sair de campo, dizem que foi muita briga, muita porrada mesmo. Depois disso levaram o Flamengo lá e nós fomos muito bem recebido. Fiquei sabendo depois que o convite ao Flamengo foi para apaziguar as coisas entre Rondônia e Acre. Nessa temporada em Rio Branco demos um show de futebol, quer dizer, mostramos que Rondônia era realmente melhor em futebol tanto que o Flamengo foi o campeão do pentagonal, lá dentro.

 

Zk – Tem um jogo que o Flamengo fez contra um time de Belém. Esse jogo não sai da minha memória porque na primeira bola que você chutou no gol o goleiro do time paraense pegou só com uma mão. Como você se sentiu naquele momento?

Bacu – (sorrindo) Foi o François que era o goleiro do Remo, chutei da meia lua e ele pegou só com uma mão e eu falei: Pô! Não chuto mais. Foi aí que o Delmar, Juquinha me deram a maior força dizendo que o cara era frangueiro e coisa e tal, não deixa ele te desmoralizar não, levanta a cabeça o que é isso! Fui pra cima mostrei meu futebol e ainda fiz gol no negão.

 

Zk – Vamos voltar ao Maracanã. Você estava me dizendo que tem uma coisa que te glorificou logo após o jogo com a Petrobras. Qual foi essa coisa?

Bacu – Após o jogo, a gente estava no vestiário, quando alguém chegou perguntando: Quem foi que fez o primeiro gol? Valter Santos, Odete e aquela turma do Moto respondeu foi o Bacu. Que Bacu? Não me venham dizer que é o velho Bacu? É ele mesmo! Eu estava com 35 anos de idade já tinha até parado de jogar.

 

Zk – E quem foi que chegou fazendo a pergunta?

Bacu – O Coronel Paulo Nunes Leal, o Coronel Mader e o Enio Pinheiro três ex governadores do Território Federal de Rondônia. Foi então que o coronel Paulo Leal falou: Bacu você pode se considerar o primeiro jogador da Amazônia Ocidental, a fazer o primeiro gol no Maracanã. Fiquei assim meio duvidoso. Ao retornar a Porto Velho fui consultar o Simeão Tavernard que era entendido no assunto e ele confirmou dizendo: Não tem problema Bacu pode comemorar, pois, a única seleção da Amazônia Ocidental que jogou no Maracanã foi a do Para em 1948 por aí assim e eu era o goleiro, perdemos de seis a zero para seleção carioca.

Zk – Já que você falou em Paulo Leal vamos lembrar a caravana Ford?

Bacu – De acordo com o livro escrito pelo coronel Paulo Nunes Leal “O Outro Braço da Cruz” sabemos que ele Paulo Nunes chegou com o presidente Juscelino e sugeriu: “Por que o senhor não faz o outro lado da cruz? E Juscelino perguntou “E dá” e o Paulo Nunes respondeu: “É uma obra para Macho”. Então o Juscelino disse: “Então vamos fazer”.

 

Zk - E como foi que você foi convocado para fazer parte da caravana Ford?

Bacu – Eu era motorista da prefeitura e o José Saleh Morheb que era o prefeito, comprou duas caçambas basculantes da Chevrolet eu fui escalado para ir buscar esses carros na fábrica da Chevrolet em São Paulo.

Zk – Ué, mas, a caravana não era da Ford?

Bacu – Aí é que está! Só de Cuiabá para Porto Velho foi que passamos a fazer parte da trajetória da Caravana Ford. A BR até então praticamente não existia, era apenas um caminho de serviço, nossa equipe chegou até Pimenta Bueno. Em Pimenta Bueno nossa turma veio para Porto Velho e uma outra turma de motorista e trabalhadores assumiram a Caravana até Porto Velho. Isso foi em 1960. Foi nessa nova equipe que estavam o Zé Vieira, Gervásio Marinho e muitos outros.

Zk – No caso da equipe que você estava, qual o trecho mais difícil?

Bacu – O trecho que mais marcou a nossa equipe foi o trajeto de Barracão Queimado a Vilhena. Os carros saiam da estrada, era aquele sufoco, até que ficamos atolados sem poder passar. Corremos de Barracão Queimado a Vilhena onde fomos buscar um tratador na Camargo Correia para rebocar os carros dentro do atoleiro.

Zk – Quanto tempo durou o percurso de São Paulo a Porto Velho?

Bacu – Ao todo foram exatos dois meses ou sessenta dias. A caravana saiu de São Paulo no dia 28 de outubro e chegou a Porto Velho no dia 28 de dezembro de 1960.

Zk – Como vocês conseguiam os mantimentos principalmente de alimentação?

Bacu – O coronel Paulo mandou aqueles aviozinhos, os teco tecos, levar mercadoria para Pimenta Bueno e de lá era distribuído ou levado até onde estava a caravana.

 

Zk – E a história do leite de tigre?

Bacu – Isso é história do Gervásio. O Tufi Matny também trouxe um caminhão da Ford e o Kerubim que era sobrinho dele vinha dirigindo esse carro. Em certo trecho que não dava para passar tivemos que montar acampamento para esperar socorro, acontece que estava faltando cachaça e então o Gervásio mais uma turma danada, foi lá e pegou álcool e leite de moça da carga do carro do Kerubim e então fizeram leite de tigre pra poder a turma agüentar a barra. Naquela época era muito mosquito. Graças a Deus ninguém adoeceu.

 

Zk – Agora você vai nos contar a história de como nasceu à escola de samba Asfaltão, na realidade, o Bloco do Asfaltão?

Bacu – O Asfaltão surgiu através dos colegas da garagem da prefeitura que trabalhavam no asfaltamento das ruas de Porto Velho, era o Gervásio, João Natal, Zé Holanda, Jorge Macumba, entre outros. Como eu tinha boa intimidade com o Luiz Gonzaga que era o prefeito consegui uma verba para colocar o Bloco do Asfaltão. A história da criação do bloco foi assim: A gente estava trabalhando com asfalto e era tempo de carnaval, então começou aquela brincadeira de um melar o outro de piche e alguém sugeriu vamos desfilar como “Bloco do Asfaltão” e então fizemos rodo, vassoura e todos os apetrechos que a gente usava para asfaltar as ruas só que no caso do bloco, era tudo de madeira.

 

Zk – E o primeiro desfile como foi?

Bacu – O interessante foi que quando chegamos em frente ao palanque oficial, dos cinqüenta brincantes que saíram da sede da SEMOB se passaram 10, foi muito os demais ficaram bêbados pelo meio da viagem.

 

Zk – E o Mocororó quem inventou?

Bacu – Foi o José Fernandes Meireles, ele preparava toda aquela gororoba e empurrava na turma. O Zezeca foi o primeiro a capotar, lembro que pelo palanque estava eu o Parruda, João Natal, Zé Meireles, Gervásio  e o Jorge Macumba. Depois do caso passado, do desfile terminado, fui soltar uns dez, que estavam presos na Central de Polícia por estarem aprontando bêbados no Mercado Municipal que hoje é Mercado Cultural.

 

Zk – Vamos voltar no tempo. Como foi a história da melancia dos feirantes?

Bacu – Eu era adolescente e morava no Beco do Mijo que ficava na hoje rua Floriano Peixoto perto o Mercado. A gente pegava carreto dos ribeirinhos que chegavam na lancha do Beiradão e trazia para a feira em frente ao Mercado, eu e meu primo Zeca, nesse trajeto a gente derrubava uma melancia. Quando chegávamos com a carga, dizíamos ao dono que tinha uma quebrada e ele mandava a gente jogar fora. Justamente era isso que queríamos, pois quebrávamos a melancia de propósito só para comê-la depois. Minha mãe foi uma das banqueiras da feira, justamente na feira que funcionou entre o Ferroviário e a sede da Ceron, alias, naquele tempo era o Clube Internacional era a feira da Rua do Coqueiro.

 

Zk – Qual o nome do seu pai e da sua mãe?

Bacu – Meu pai se chamava Basílio de Araujo Filho e minha mãe Ligia Araujo. Ele era natural da Boca do Acre e ela era paraibana de Campina Grande. Eles se conheceram no Belmonte através do meu avô, se gostaram e se casaram. Nossa família é muito grande. Quero aqui externar meus sentimentos à família da minha prima Mocinha mulher do Especial que faleceu na entrada de ano novo. Aquilo pra mim marcou porque era uma prima que eu considerava muito, ela era da minha idade.

Zk – Para encerrar. Você ganhou dinheiro com futebol?

Bacu – Dinheiro não, mas, ganhei um bom emprego e hoje sou aposentado com um bom salário, isso pra mim foi e é muito gratificante.

 

Zk – Como você recebeu o convite para vir a Porto Velho ser homenageado pelo 60 anos da Caravana Ford?

Bacu – Quando você se ausenta demais da sua cidade, praticamente fica esquecido, porém através do Gervásio fui convidado a vir aqui participar das homenahens pelos sessenta anos da Caravana Ford. Acontece que daqueles pioneiros só existem quatro: Eu, Gervásio, Roberto Cazenava e Marinho.

 

Zk – Você é casado com quem e desde quando?

Bacu – Isso é bom! Sou casado com a dona Maria com quem tenho um bocado de filhos, um bocado de netos, tenho bisneto. Isso é muito gratificante na minha vida.

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