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ENTREVISTA - PT impôs ao Brasil o padrão Fifa da corrupção, diz Roberto Jefferson

Dez anos depois de denunciar o mensalão à Folha, o ex-deputado Roberto Jefferson, 61, afirma que o PT implantou o "padrão Fifa de corrupção" e que o dinheiro das estatais continua a financiar as campanhas no país.

DA REDAÇÃO

6 de Junho de 2015 às 09:32

ENTREVISTA - PT impôs ao Brasil o padrão Fifa da corrupção, diz Roberto Jefferson

FOTO: (Divulgação)

Dez anos depois de denunciar o mensalão à Folha, o ex-deputado Roberto Jefferson, 61, afirma que o PT implantou o "padrão Fifa de corrupção" e que o dinheiro das estatais continua a financiar as campanhas no país.

O petebista deixou a cadeia há três semanas. Cumpre prisão domiciliar em um condomínio de alto padrão na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, onde já viveram os ex-craques Romário e Ronaldo.

A entrevista foi autorizada pelo juiz Eduardo Oberg, titular da Vara de Execuções Penais do Rio. Leia a seguir os principais trechos.

*

Folha - Por que o sr. decidiu denunciar o mensalão?
Roberto Jefferson - Decidi dar a entrevista porque tinha sido vítima de uma matéria que deflagrou o processo da minha cassação. Aparecia um funcionário dos Correios, Maurício Marinho, recebendo R$ 3 mil e dizendo que era para o PTB. Era uma pessoa com quem eu não tinha nenhuma relação.
Virei o grande vilão nacional por R$ 3 mil. A matéria foi feita por encomenda da Casa Civil [então chefiada por José Dirceu]. Nós identificamos imediatamente de onde veio.

O governo tentou algum acordo para silenciá-lo?
Quando eu estava sob tiroteio, vai à minha casa o líder do governo, o [Arlindo] Chinaglia, e propõe um acordo. "Roberto, você renuncia à presidência do PTB, o governo designa um delegado ferrabrás para o processo, ele arquiva e tudo se acerta".
Eu disse: "Não aceito. Eu entrei pela porta da frente e vou sair pela porta da frente. Só que eu vou carregar um bocado de caras comigo. Vocês não vão me ver de joelhos, eu vou enfrentar vocês".
[Chinaglia nega o relato.]

Dez anos depois, o PT diz que não se comprovou o pagamento de mesada a deputados.
Havia mesada. A Lava Jato agora clareou isso. Por respeito à decisão do ministro [Luis Roberto] Barroso, eu só posso falar do passado. Mas o [Alberto] Youssef fazia pagamento mensal para vários deputados de partidos da base. Era aquilo que havia na época. As malas chegavam com R$ 30 mil, R$ 60 mil, R$ 50 mil. Não se comprovou porque não fotografaram.

Por que o sr. não aceita ser chamado de delator?
Isso me deixa chateado. Delator é quem está dentro. Eu não deixei o PTB entrar no mensalão, não aluguei minha bancada. Quando o juiz me propôs a delação premiada, respondi: "Excelência, delação premiada é conversa de canalha. Quem faz delação premiada é canalha".

O sr. afirmou que Lula era inocente. Mantém essa versão?
Eu avisei o presidente [sobre o mensalão]. A reação dele à época me deu a impressão de que ele não soubesse. Quero crer que ele não sabia.

Seu advogado disse ao STF que Lula chefiou o esquema.
Aí foi a liberdade do advogado. Eu dizia: "Para de bater no Lula, pelo amor de Deus. Você tá contrariando o que eu disse, tá me deixando de mentiroso". Foi quando ele renunciou [à defesa].
Ele é convencido de que o Lula tem culpa, de que não se faria uma coisa dessa envergadura sem o presidente saber. Ele é meu amigo, é um grande advogado, mas não obedece o cliente (risos).

Qual a maior consequência de sua denúncia para o país?
Caiu aquele véu que havia sobre o PT, de partido ético, moralista. O PT posava de corregedor moral da pátria. Ali caiu a máscara. O PT a vida inteira deblaterou contra os adversários, mas "blatterou" a prática política padrão Fifa. O PT impôs ao país o padrão Fifa da corrupção.

Dirceu era cotado para suceder Lula. Considera que mudou a história do país?
O Dirceu saiu da fila. Se fosse ele o presidente, nós já estaríamos vivendo aqui a Venezuela. A Dilma é o Maduro (risos). O Chávez é o Dirceu. Com ele, teria cerceamento das liberdades democráticas, perseguição à imprensa livre, cadeia para opositor. Não ia ter papel higiênico.

O que o levou a aparecer na CPI com o olho roxo?
Foi por causa de uma discussão com a [ex-deputada] Laura Carneiro sobre o Lupicínio Rodrigues e a música 'Nervos de aço'. Ela dizia que era de outro autor. Eu fui pegar o CD. Era uma daquelas estantes antigas, estava solta da parede. Quando fui me apoiar, o móvel veio.
Parecia que eu tinha apanhado. Essa história não adianta [repetir]. Nem minha mãe acreditou. Se mamãe não acreditou, como é que as pessoas vão acreditar?

O sr. foi condenado por receber R$ 4 milhões do PT. O que fez com o dinheiro?
Foi gasto nas eleições municipais do PTB em 2004, em campanhas de prefeito no Rio, em Minas, São Paulo. Isso ficou no passado. O partido no poder é que tem dinheiro para fazer eleição. O pequeno não tem, ele recebe o repasse do grande.

Quem fez o acordo no PT?
O Dirceu, na Casa Civil. Fechamos ali naquele prédio da Varig [em Brasília]. Financiamento de R$ 20 milhões à eleição do PTB, em cinco parcelas de R$ 4 milhões. Esse acordo não foi cumprido, só foi paga a primeira parcela. Foi um desastre para o PTB.

Há quem acredite que esse é o verdadeiro motivo de sua briga com Dirceu e o PT.
Se mamãe não acreditou que a estante caiu em mim, não quero convencer ninguém. É minha versão. Quem não acredita, paciência.

O sr. também foi acusado de usar órgãos do governo, como o Instituto de Resseguros do Brasil, para financiar o PTB.
O Lídio Duarte nos procurou para ter aval para ser presidente do IRB, fez um acordo conosco. Ele colocaria cinco brokers, operadores de mercado, recebendo R$ 60 mil de cada um. Conseguiria fazer um caixa de R$ 300 mil para ajudar o partido. Coisa que ele nunca cumpriu.

Era dinheiro de caixa dois?
Sim.

Isso é diferente do que foi descoberto no petrolão?
Não é diferente. Infelizmente, as estatais são braços partidários. As empresas públicas ainda funcionam no financiamento dos partidos. O cara briga para fazer diretor da Petrobras. É para fazer obra positiva, a favor do povo? Não existe isso.
As estatais são as grandes promotoras da infraestrutura do país. Elas é que são fortes. Não tem empresa privada no Brasil. E tem as paraestatais, que são as empreiteiras. Funcionam em função do governo.

O que acha da proposta de financiamento público?
O Brasil não tem financiamento privado. O financiamento é público de segunda linha, mas é. Quem financia campanha no Brasil são as empresas que têm grandes contratos com BNDES, Banco do Brasil, Petrobras.
Eu acho uma graça isso: "Temos que acabar com o financiamento privado". Não tem financiamento privado, é estatal. Os empreiteiros não são privados, são braços das estatais. É aí que está o caixa de toda eleição.

Então não seria melhor proibir as doações?
Se proibir o financiamento privado, vai tirar dinheiro da saúde, do transporte e da educação para fazer campanha. É um absurdo. O político vai ser linchado na rua. E proibido o financiamento privado, você dificilmente derrotará o partido oficial.

Depois de ser cassado e preso, o sr. se arrepende por ter denunciado o mensalão?
Eu sabia o que ia acontecer e estava preparado. Não tenho nenhum arrependimento. Zero. Só não gostaria de fazer de novo, de sofrer isso tudo
outra vez.

CRONOLOGIA DO MENSALÃO

·                     6.jun.2005 Folha publica entrevista em que o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) revela o pagamento de mesada para congressistas em troca de apoio ao governo Lula

·                     9.jun.2005 Congresso Nacional instala a CPI dos Correios para apurar o esquema do mensalão

·                     16.jun.2005 José Dirceu deixa a Casa Civil e é substituído por Dilma Rousseff

·                     17.jul.2005 Lula diz que todos os partidos fazem caixa dois para as campanhas eleitorais

·                     11.ago.2005 Duda Mendonça diz que recebeu R$ 11 milhões do PT no exterior por caixa dois

·                     14.set.2005 Câmara dos Deputados cassa o mandato de Roberto Jefferson, do PTB

·                     1º.dez.2005 José Dirceu tem seu mandato cassado na Câmara

·                     5.abr.2006 CPI dos Correios aprova relatório final concluindo que o mensalão existiu, mas isenta Lula

·                     12.abr.2006 Procuradoria-Geral da República denuncia 40 envolvidos com o esquema ao Supremo

·                     29.out. 2006 Lula é reeleito (foto)

·                     28.ago.2007 Supremo Tribunal Federal aceita a denúncia contra 40 acusados do mensalão

·                     31.out.2010 Ex-ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff é eleita presidente no 2º turno

·                     20.dez.2011 O relator do processo, ministro Joaquim Barbosa, entrega seu relatório final sobre o caso

·                     2.ago.2012 Ministros do STF dão início ao julgamento da Ação Penal 470, do mensalão

·                     23.out.2012 Supremo conclui a análise dos crimes: 25 réus são condenados, e 12 absolvidos

·                     14.ago.2013 STF inicia o julgamento dos embargos de declaração de todos os condenados

·                     5.set.2013 Corte conclui o julgamento dos primeiros recursos: 3 réus têm suas penas de prisão reduzidas

·                     18.set.2013 STF decide, por 6 votos a 5, que 12 réus terão direito a um novo julgamento em alguns crimes

·                     13.nov.2013 STF ordena o início do cumprimento das penas que não têm recursos pendentes de análise pelo plenário

·                     15.nov.2013 Dez condenados se entregam à PF, entre eles o ex-ministro José Dirceu e o ex-presidente do PTJosé Genoino (foto)

·                     16.nov.2013 Também condenado, o ex-diretor do BB Henrique Pizzolato revela que fugiu para a Itália

·                     5.fev.2014 Pizzolato é preso na Itália (foto)

·                     24.fev.2014 20º condenado do mensalão a ter a prisão decretada, o ex-deputado Roberto Jefferson é preso

·                     27.fev.2014 Supremo revê julgamento e decide que mensalão não teve quadrilha

·                     13.mar.2014 STF absolve o ex-assessor do PP João Cláudio Genu

·                     12.ago.2014 Genoino é o primeiro preso a ganhar a progressão de regime e passa a cumprir o resto de sua pena em regime aberto

·                     4.jun.2015 Justiça italiana autoriza extradição de Pizzolato, mas cabe recurso

 

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